Falta de remédio afeta 5 mil portadores de HIV em Mato Grosso | Gazeta Digital

Quinta, 22 de junho de 2017, 08h00

Falta de remédio afeta 5 mil portadores de HIV em Mato Grosso

Dantielle Venturini, repórter de A Gazeta


Agência Brasil

Medicamentos são racionados e fracionados para tentar atender demanda em todo o Estado

Mais 5,4 mil pessoas estão com o tratamento de HIV/Aids comprometido em Mato Grosso por causa do desabastecimento e racionamento de medicamentos essenciais para a saúde dos pacientes.

De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde (SES), a distribuição para os estados é de responsabilidade do Governo Federal, por meio do Ministério da Saúde, e o problema vem ocorrendo desde abril desse ano. Conforme a SES, 5.479 pessoas estão em tratamento no Estado e em média pelo menos 100 pessoas iniciam o tratamento a cada mês.

Até semana passada um dos medicamentos mais importantes para o tratamento, o 3TC, conhecido como 3 em 1, que precisa ser tomado diariamente pelos pacientes, estava em falta. Essa semana o Ministério da Saúde enviou uma remessa, mas em quantidade inferior a necessária, o que acarretará no racionamento. Outros dois medicamentos também importantes no tratamento, o Ritonavir e AZT injetável, o Estado nem mesmo tem em estoque.

De acordo com a coordenadora de vigilância epidemiológica, Alessandra Moraes, o Estado e os municípios não têm condições de comprar os medicamentos, que são caros e fazem parte de uma política de tratamento do Governo Federal.

Em Mato Grosso, os pacientes recebem a medicação de 2 em 2 meses, mas desde abril está sendo feito o fracionamento para conseguir garantir que todos deem continuidade ao tratamento. Com isso, o paciente, ao invés de retirar uma quantidade suficiente para um mês, recebe doses para 15 dias e volta para pegar o que falta.

“Essa semana recebemos o 3TC (ARV Tenofovir+Lamivudina+Efavirenz, composição 300+300+600mg), suficiente para um mês. Ou seja, o paciente vai receber para se tratar 15 dias e terá que voltar para buscar o restante se tivermos em estoque”.

Conforme Alessandra, esses estoques fracionados dificultam o tratamento principalmente no interior, já que muitos pacientes precisam sair de sua cidade e ir até outra, mais de uma vez no mês, para garantir o tratamento. “Nós buscamos ter pacientes aderidos, que estão comprometidos com a continuidade do tratamento, e esse tipo de problema acaba afetando e dificultando”.

Soropositivos relatam dificuldades e medos

A falta de medicamentos para o tratamento de HIV/Aids tem causado sérios transtornos e colocado em risco da vida de pacientes no Estado. Para tentar garantir o tratamento, além do fracionamento, a SES tem feito ainda o remanejamento de medicamentos, ou seja, caso alguma região do Estado ainda tenha o remédio, ela envia para aquela que não tem. Mesmo assim, em alguns casos, pacientes ficam mais de semanas sem.

Paciente soropositivo, que mora em Cuiabá e prefere não se identificar, explica que há mais de duas semanas não consegue o Ritonavir, um dos remédios que compõe o coquetel prescrito pelos médicos. “A gente tem que recorrer a amigos que tem sobrando, em casa. Conversa com um, conversa com outro. Pede emprestado e, quando a gente receber a medicação, devolve para eles, mas nas últimas semanas eu tenho ficado sem”, afirma.

Outra paciente que convive com o vírus HIV há mais de 20 anos ficou sem o 3TC mais de semanas, e agora conseguiu pegá-lo, mas apenas para 15 dias. “É desesperador a gente pensar que não terá como dar continuidade ao tratamento. Só entende quem tem, pois sabe que quando é interrompido o tratamento, nós passamos por uma série de dificuldades ao retomá-lo”.

Coordenadora da Vigilância Epidemiológica, Alessandra Moraes explica que quando um paciente deixa de tomar o medicamento ele está vulnerável ao vírus, e quando é retomado o tratamento passa novamente por uma série de reações como se estivesse começando. Segundo ela, muitas pessoas resistem em tomar o coquetel por conta de efeitos colaterais que aparecem no início do tratamento. “São muitas reações físicas e psicológicas o que traz sofrimento e riscos”.

Entre as reações que podem ocorrer estão alucinações, depressão, diarréia, vômitos, náuseas, manchas avermelhadas pelo corpo, entre outras.

Outro lado

O Ministério da Saúde afirmou que não há falta de medicamentos para o tratamento de HIV/Aids em Mato Grosso. Conforme o órgão, foi averiguada a situação e a logística do próprio Estado teria informado ao órgão federal que não há falta de estoque, ao contrário do divulgado pela SES à imprensa. 

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