Folia carnavalesca tem tolerância e proibição em algumas religiões | Gazeta Digital

Quinta, 08 de fevereiro de 2018, 14h56

Folia carnavalesca tem tolerância e proibição em algumas religiões

Johnny Marcus, repórter de A Gazeta


Estadão Conteúdo

O carnaval é, depois do futebol, a maior referência do Brasil no exterior. A ponto de milhares de turistas do mundo inteiro virem todos os anos para conhecer e se divertir nos festejos de Momo. Contudo, nem todo brasileiro é chegado a folia. Muitos preferem o sossego do lar para colocar a leitura em dia ou ver filmes. Tem gente ainda que no período carnavalesco procura algum recanto junto a natureza e outros que optam pelos retiros espirituais.

Carnaval e religião tem uma relação conturbada. Embora alguns grupos religiosos brasileiros condenem a festa carnavalesca, outros adotam uma postura mais tolerante. Para o espírita Márcio Monteiro, presidente das Obras Sociais Wantuil de Freitas, existe, por trás do carnaval, “uma onda de energia negativa que aproveita para explorar os mais fracos”. É o que na doutrina kardecista classifica-se como “vampirismo espiritual”, quando espíritos desencarnados literalmente sugam a energia dos vivos. “As trevas aproveitam esse momento de ‘invigilância’ das pessoas para satisfazer seus desejos carnais”.

Todavia, o líder religioso enfatiza que “não há nenhuma proibição específica aos espíritas quanto ao carnaval, mas é importante que o cuidado seja redobrado pois, por trás da suposta festa da alegria, existe uma ação das trevas”. Márcio ainda alerta para o grande aumento de tragédias e acidentes ocorridos durante os dias de folia. “Os índices de violência disparam. É quando também ocorre um alto índice de gravidezes indesejadas, que muitas vezes acabam em abortos, ato ao qual somos totalmente contra”. É também durante o carnaval, completa, “que forças espirituais malignas induzem os jovens a entrarem no alcoolismo e no consumo de drogas ilícitas”.

Luciano Prado

A casa espírita Wantuil de Freitas não tem nenhum evento alternativo ao carnaval em Cuiabá mas, em Uberaba (MG) e Campo Grande (MS) ocorre a Confraternização das Campanhas de Fraternidade Auta de Souza (Concrafas) que, segundo Márcio, “reúne de 10 a 15 mil pessoas. Aproveitamos esse período para trabalhar e estudar e fazer trocas de experiencias com outras federações espíritas. É um momento de oração e meditação”.

Vinde e Vede

Em tom pesaroso, Dom Milton Santos, arcebispo da arquidiocese de Cuiabá, argumenta que “assim como o Natal, o carnaval - algo que era eminentemente cristão -, foi tomando outro rumo ao longo do tempo”. O líder católico explica que “o carnaval começou na Igreja”. “Antes da Quaresma era um tempo de crescimento, de alegria, de concentração, de preparação para a ressurreição do Cristo. Era a festa antes de começar a ‘carnem levare’ (afastar a carne). O que temos hoje é um extremo, nada a ver com o rito da Igreja Católica”, afirma.

Apesar de os fiéis não serem proibidos de participar do carnaval, Dom Milton exorta os que forem brincar para “o bom senso e de serem coerentes com a própria fé”. Bem humorado, o arcebispo cita, inclusive, um bloco carnavalesco formado por católicos salesianos, em São Paulo, capital. “Eles brincam de forma sadia”, esclarece.

A arquidiocese de Cuiabá promove, durante o carnaval, o 32º Vinde e Vede, maior evento religioso católico de Mato Grosso. O público esperado é de aproximadamente 120 mil pessoas. “Serão quatro tardes de músicas com mensagens, músicas litúrgicas e músicas de fé. Afinal, será o verdadeiro carnaval trazendo a alegria e a palavra de Deus”, revela Dom Milton. Na ocasião, haverá a “Micarecristo”, ou micareta de Cristo.

Excessos

João Vieira

Ainda que seja a maior festa popular do Brasil, para o reverendo Marcos Antonio Serjo, pastor sênior da Igreja Presbiteriana de Cuiabá, o carnaval se reporta as festas em honra aos deuses Baco e Saturno, que eram festejadas com um festival de três dias a cada ano, que recebeu o nome de “bacanal” ou “bacchanalia”, caracterizado por bebedices, orgias sexuais e outros excessos.

Estas festas eram cultos aos prazeres da carne, em absoluta afronta ao Deus da Bíblia. Eram totalmente de inspiração satânica, em contraste com a verdadeira espiritualidade. “Hoje, não é diferente, talvez, pior. São quatro dias, em muitos lugares uma semana, ao som de ritmos frenéticos e alucinantes, regados a muita bebida alcoólica e drogas, a prática do sexo sem limites, ao culto da sensualidade, as luxúrias, ostentações e excessos de toda ordem”.

A programação da igreja evangélica, presente há 98 anos em Cuiabá, compreende um retiro espiritual para jovens e adolescentes, de 9 a 14 de fevereiro, numa chácara na estrada de Chapada dos Guimarães. “Em nosso acampamento, os participantes, além das atividades espirituais de oração, edificação e louvor, também tem atividades recreativas”.
O evangélico presbiteriano, explica o pastor, é orientado a “ se abster de tais práticas e procurem, além de descansar, investir na comunhão familiar e crescer na graça e no conhecimento de Deus”.

Resguardo

A Umbanda, religião brasileira fundada no começo do século XX, compreende o carnaval como “um período de desprendimento espiritual, voltando especialmente para o gozo material, ficando em tese, o sagrado fora dos festejos”. A explicação é de Pai Aécio Montezuma, presidente da Federação Nacional de Umbanda e dos Cultos Afro Brasileiros (Fenucab). O umbandista tem a Grécia antiga como referência para o carnaval. “O evento tinha como apego festivo o deleite ao corpo carnal”.

Apesar da riqueza de ritmos que compõem a Umbanda, eles não celebram a festa de Momo dentro da doutrina. A orientação, conta Pai Aécio, é “para resguardarem-se, conforme preceito doutrinário específico de cada Casa”. Os adeptos são livres para pular o carnaval, mas “a maioria dos terreiros realiza rituais de prévia defesa, tendo em vista as mais variadas tentações próprias do período, tais quais, sexo sem critério, álcool em demasia e uso de produtos alucinógenos, os quais condenamos”.

Para Pai Aécio, o carnaval acaba sendo um alento para a exclusão social vivida por grande parte da sociedade. “Num país rico que nem o nosso, caso a corrupção fosse extirpada de vez, teríamos como viver sempre em estado carnavalesco, pois sobraria mais dinheiro para a integração sociocultural entre”, defende. 

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