Quarta, 06 de julho de 2016, 00h00

Hélcio Corrêa Gomes

Morre mais um herói humano

Hélcio Corrêa Gomes


Elie Wiesel morreu aos 87 anos no sábado (2) em Nova York. Aqui a vida cívica parece ter perdido mais um pedaço importante. Fica menor e desamparada de mais um porta-voz da consciência moral contemporânea. Um gigante (franzino com 58 quilos), que sobreviveu ao horror de Auschwitz, onde se matavam indefesos judeus, ciganos, gays e testemunhas de Jeová. Ele sobreviveu as atrocidades dos nazistas. O mal absoluto o fez prisioneiro aos 14 anos, mas não atingiu na alma.
Ele dissipa no tempo devido todo rancor. Após a liberdade atribui a si o dever de levar a mensagem de paz e reconciliação. Wiesel dizia que a maior punição ao nazismo era ter esperança. E reavivar a memória do ocorrido desumano. Nunca quis retirar a tatuagem encravada no antebraço esquerdo com inscrição A-7713 de prisioneiro judeu, na segunda guerra mundial (1939-1945).
Em 2014 chegou-se a ventilar no Estado de Israel em lhe oferecer o cargo de chefe de Estado. Convite que dizem ter recusado, pois tinha tarefa maior na defesa de todas as vítimas da intolerância no mundo afora.
Autor de 47 livros, quatro deles sobre os sofrimentos dos judeus na segunda grande guerra. De fato, dedica sua vida aos oprimidos. Foi agraciado com prêmio Nobel da Paz em 1986. O livro ‘A noite‘ de Elie (lançado em 1958) tem descrição pormenorizada de sua primeira noite angustiante num campo de concentração. Além das práticas desumanas inadmissíveis no inferno - se porventura existir.
Ele foi além de sua dor pessoal ao escrever: ‘Nunca vou me esquecer dos pequenos rostos das crianças, cujos corpos eu vi transformados em coroas de fumaça debaixo de um céu azul silencioso‘. Narra com detalhes as maldades racionais nazifascistas. Mas nunca se deixa envenenar com desejo de vingança.
Filósofo, professor, escritor e principalmente ativista contra a injustiça. No final da vida, mais um baque. Perde todas suas reservas financeiras no auge da velhice, que foram acumuladas com trabalho em 50 anos. Tudo perdido por golpe em Wall Street, perpetrado por Bernie Madoff (o falsário). Mas não se resigna novamente aos lamentos improdutivos. Apesar da fraqueza física por anos adiantados, Elie se mantém com a agenda lotada de palestra, abordando assunto que remexia com época sombria e mui dolorosa para humanidade.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, diante da perda irreparável disse: ‘Na escuridão do holocausto, quando 6 milhões de nossos irmãos e irmãs foram assassinados, Wiesel serviu como um raio de luz e exemplo de quem acreditou na bondade das pessoas’. Era uma voz ativa, inteligente e perspicaz, que transcende ao tempo (imortal, talvez). Tem algo de importante que reflete no discurso e atitude no desfavor da violência étnica e indiferença. Um pensar profícuo que fica como contraponto histórico para política xenófoba e prejudicial ao desenvolvimento do mundo que, ainda, cai fácil na tentação de solução imediatista para os problemas difíceis entre o tribal tardio e mundo contemporâneo (universal).
Wiesel já pode descansar em paz. Afinal, seu desejo e árdua batalha, antes aparentemente quixotesco, constituiu-se como pressuposto basilar do direito internacional com caráter de irrevogabilidade nas sociedades civilizadas. Hoje se tem, em maior ou menor grau, proteções jurídicas (mínimas) aos mais frágeis e desterrados.
O mundo e principalmente Israel perdeu mais um de seus grandes heróis humanos.
 
Hélcio Corrêa Gomes, advogado.
 



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