Quarta, 13 de abril de 2016, 00h00

Banalidade do mal - I


Todos os males da política decorrem de como são feitas as eleições‘. Por incrível que pareça, esta frase é de Dom Pedro II (1770). A crise que enfrentamos aqui no Brasil nos últimos tempos é um embate que chega até as últimas consequências, entre o falseamento da verdade, o cinismo e a prospectiva de ressuscitar um mínimo de ética pública. É preciso acumular esforço da população em busca de sanear a indigência na representação política. As alternativas colocadas neste cenário, desde o impeachment não são nada alvissareiras.
A quase totalidade dos atores políticos, apresentam-se apenas rodiziando nas oportunidades de locupletação do poder, traições e continuidade da malversação pública. Raros se posicionam como alternativa à construção da decorosidade na política. Talvez só eleições gerais como saída, com renúncia de todos os mandatos, se assim for possível na constitucionalidade, sobretudo na soberania da população. Será possível uma eleição geral mais ou menos limpa aqui no Brasil - com a sanha da luta pela impunidade na corrupção?
A filosofa Hanna Arendt dizia que seu ofício era a teoria política, aprofundando no que chamou de ‘banalidade do mal‘. Tratou do mal absoluto, ou mal radical, em seus efeitos bombásticos sobre a ética e a função do poder, a luz do nazismo e da sua condição judaica. Daí, fez análises abrangentes para sistemas em que todos tornam-se supérfluos. Para isto, seria preciso destruir a pessoa jurídica de homens e mulheres, para então acabar com suas individualidades e espontaneidades. Assim, tratar de sumir com a capacidade humana de ter iniciativas novas autonomamente. É a conspiração para que todos tornem-se supérfluos. O cidadão seria reduzido aos que atuam sob ordens, que obedecem cegamente e incapazes de pensarem por si próprios. A superioridade da obediência iria abolir a espontaneidade da criação, do enfrentamento, do confronto e da resistência.
Nesta busca do potencial da ausência de pensamento, nessa opacidade, consciência rarefeita, é que surge a tragédia que a filosofa chamou de banalidade do mal. O fenômeno do mal na esfera política cabe como reflexão aqui, agora em nossos tempos. A partir do vazio ético no pensamento e na prática política, passando pelo fascismo, termo muito usado nos tempos recentes, aterrissamos na malfadada experiência brasileira dos tempos sombrios da ditadura. O último 31 de março e primeiro de abril, ficou engolfada e até esquecida neste ciclone de crise política que o país enfrenta. Estamos há 52 anos do ‘Golpe Civil-Militar-Empresarial’, que impôs uma escalada de violência do Estado Ditatorial no Brasil. Na progressão dos Atos Institucionais, o AI-5 fecha o Congresso, suprime o habeas corpus, extingue a legalidade jurídica e constitucional, escancarando as portas ao terrorismo do Estado, com a imprensa amordaçada. Milhares de perseguidos, exilados, torturas, assassinatos, mortos, desaparecidos, tantas famílias até hoje esperando encontrar os corpos de seus entes queridos para enterrá-los. Centenas de presos políticos espalhados pelas prisões, 10.000 exilados, 119 banidos espalhados pelo mundo, 4.877 políticos cassados, 263 estudantes expulsos das Universidades Federais pelo decreto 477. Neste período foi estreitado o conluio do Governo com empresariado, empreiteiras e projetos megalomaníacos sob os auspícios da malversação do dinheiro público.
A mesma promiscuidade público-privado que apareceu na ditadura, hoje aflora com a Operação Lava-Jato, intensificando a bem-vinda luta contra a corrupção e a impunidade X a luta nefasta para continuar tudo como antes. A defesa irrestrita contra as investigações é absurda: se todos desviaram o dinheiro público, porque nós não podemos? É ridículo o argumento de golpe, quanto mais na boca dos que viveram os rigores da ditadura. É preciso sucumbir ao menos com a mínima dignidade, pois as regras do jogo e parceiros hoje contendores foram escolhidos pelo partido do governo e suas lideranças, para sustentarem-se no poder. Balcão de negócios a todo o vapor com o erário público a qualquer preço.
Quem acredita que o partido do governo não tenha nada a ver com tudo que está acontecendo? Estamos à frente da banalização do mal e do cinismo. E agora?

Waldir Bertúlio é professor da UFMT. E-mail: waldir.bertulio@bol.com.br



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