Banalidade do mal - II | Gazeta Digital

Quinta, 21 de abril de 2016, 00h00

Banalidade do mal - II


1- Nosso futuro político é uma zona cinzenta. A Câmara Federal ficou exposta na votação desse domingo na admissibilidade do impeachment em um verdadeiro cenário do absurdo. Precedido de negociatas de ambos os lados, desfile de baixarias, hipocrisia, em manifestações descoladas da causa em votação em um parlamento vergonhosamente paupérrimo, onde se defendem e cobram atitudes que jamais professaram. Isto é o ápice do tradicional jogo da demagogia. Investidos em cargos eletivos, o que menos interessa para a quase totalidade dos parlamentares e executivos é o que interessa realmente ao povo brasileiro. Raríssimos justificaram seus votos, mesquinharia, mentiras, falas bizarras para tentar naqueles segundos fisgar o voto do eleitor em seus currais eleitorais.
2- Fuga dos argumentos, neste deprimente espetáculo de horror, que trouxe no mínimo nojo a já esperada continuidade da prática de desprezo aos mandatos. Oportunismo ridículo e ‘mequetrefe‘. Enfim, esses parlamentares foram eleitos, e certamente, a maioria obteve seus mandatos da forma execrável que conhecemos há tanto tempo, expostas pela justiça após o mensalão e na avalanche aberta pela Lava Jato. Apesar de os governistas afirmarem que o mensalão não existiu, e tentarem enterrar as investigações.atuais. Os tempos são sombrios, são outros. Ditadura, lutar para nunca mais ! Vivandeiras remanescentes e minoritárias, a declaração de voto do dep. Bolsonaro é repugnante, hedionda, fazendo apologia da tortura e assassinatos cometidos no regime de exceção. Merece processo e julgamento penal, além da cassação do seu mandato.
3- A filósofa Hanna Arendt mostrou que a partir do terror no totalitarismo do holocausto, é preciso imaginar e produzir ações com novas formas de pensar o mundo. Fala da crise política e da quebra da autoridade política .Tratou da crise a partir do séc. XX na obra ‘ Entre o Passado e o Futuro‘, indagando qual seria a perspectiva do cenário futuro? Entendeu que nas crises se desenvolvem ações libertadoras. Portanto, tempo de construir e reconstruir rumos.
 4- Em outra obra, ‘A Condição Humana‘ , considerada sua maior contribuição para a teoria política, coloca o fenômeno da alienação como principal característica da ‘modernidade‘. Coloca uma teoria da ação, onde a atividade humana é a matéria-prima da vida política. Quer dizer, é na vida política que homens e mulheres experimentam sua capacidade de agir, de reagir, de intervir por seus interesses. Destacou dois elementos como papéis centrais da ação na abordagem da experiência política: a imprevisibilidade e a irreversibilidade ( o governo atual e anterior fez aliança e construiu a base aliada que quis, abrindo mão de princípios e trilhando caminhos desviantes).
 5- Hannah fala que nunca somos senhores dos processos que desencadeamos com nossas iniciativas, e diferentemente do que ocorre no contexto com a natureza, não podemos desfazer as ações que começamos. Os únicos recursos para lidar com isso são a nossa capacidade de prometer e conseguir alguma estabilidade (fazer autocrítica)}, rever e perdoar (a si próprios), para estabelecer um novo começo.
 6- A perplexidade da abertura dos porões do mal no séc. XX, ficou marcada quando a autora foi cobrir a reportagem, em Jerusalém, do julgamento do nazista Adolfo Eichmann. Muita polêmica sobre o conceito de banalidade. Para nossos tempos, é compreender como naturalização do mal, enquanto ela falava dos motivos fúteis que levaram ao acometimento dos males na agenda política.
 7- Naturalizar é sobrepor uma cultura de normalidade das violências perpetradas em nome do Estado e da política. Assim, adentramos na miséria política acumulada em nosso país. A naturalização da indigência nas representações políticas é um fio de meada. No prefácio do livro (de Hannah) ‘Homens em Tempos Sombrios‘, ela retrata figuras proeminentes do séc. XX. Diz que essas personalidades são pequenas luzes a servir de orientação em épocas de crise, sofrimento e de perplexidade.
8- É preciso apoiar drasticamente nesta gravíssima crise que atravessamos a continuidade das investigações para que todos responsáveis por desvios sejam julgados e punidos exemplarmente. A começar imediatamente por Eduardo Cunha (por que o STF não o cassou ainda?), Temer e Renan. Que sejam devidamente impedidos de continuar defendendo a garantia da impunidade,tentando deletar a justiça dos seus calcanhares, prática também conduzida pelo governo, base aliada e quase totalidade dos opositores, em dissimulação permanente. Em MT, ‘a justiça vem mostrando sua cara‘. Novidade promissora em nossa história política.
É preciso que todos sejam investigados até as últimas consequências e devidamente punidos. Frente ao descrédito acumulado, levaremos quantos anos e talvez décadas para outra oportunidade de construir um país justo e democrático? Resta-nos retomar a participação política, cuja falta nos conduziu a esta condição humilhante! Refundar a esperança na política.


Waldir Bertúlio é professor da UFMT. E-mail: waldir.bertulio@bol.com.br



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