Quinta, 12 de maio de 2016, 00h00

Cuiabá: a cidade possível?


A conexão entre poder e dinheiro é fundante no fenômeno da desfiguração e espoliação urbana. Do ponto de vista dos polos de conflito, trata-se de uma polarização entre a cultura, que deveria ser o elemento central do pensamento das cidades, e o capital, em seus interesses mercadológicos. É o que assistimos na ocupação urbana aqui na cidade de Cuiabá.
Ermínia Maricato chama esse tipo de cidade, desprovida da sua essência de memória e cultura, de ‘cidades do pensamento único’, onde o repensar do espaço urbano deve partir exatamente da reflexão sobre as coisas novas e ruins existentes e/ou planejadas. Na perspectiva que nada seja imutável é preciso pedir que, por favor, não achem muito natural o que muito se repete na configuração urbana. Isto é bem confirmado na obra de Bertold Brecht, ‘A Exceção e a Regra’. A exclusão urbanística, a invasão territorial, a desfiguração ambiental na gigantesca sanha de ocupação urbana, não fazem parte das preocupações da cidade oficial. Nela, via de regra, o objeto do planejamento urbano é dirigido para favorecer quem comprime as demandas reais, colocando-as fora de cogitação dos planos.
Esta faceta inclui a transgressão da legalidade, no contexto de interesses do mercado imobiliário. Não existe ordem nem plano para a cidade legal; assim, o planejamento tende a caminhar para não atender realidades concretas da cidade, seguindo rumo que responde apenas a uma parte interessada nos investimento e lucros sobre o crescimento da cidade. Os produtos são a exclusão, a miséria, a violência. Para quais setores da cidade estão voltados os interesses dominantes do mercado? Para a cidade excluída sobra de início apenas a oferta de mão de obra nos seus empreendimentos urbanísticos. Convive urbanização com exclusão, onde a aplicação da lei é arbitrária e relativa, voltada a um mercado imobiliário restrito e rigorosamente especulativo. Predomina aí a dominação política, econômica e cultural.
 O solo urbano ocupado pela população de menor poder aquisitivo é solenemente excluído da gestão pública, ampliando a reprodução das desigualdades. Chico de Oliveira chamou de ‘ideias fora do lugar’ e ‘lugar fora das ideias’, essa contradição entre o planejamento urbano, a legislação, e a realidade sócio-ambiental das cidades, onde prevalece o crescimento da ocupação ilegal e a expansão de favelas. Então, as ‘ideias fora do lugar’ referem-se a partes da cidade que são ignoradas - ou, praticamente, a cidade toda, como é o caso de Cuiabá. O que se consegue é ampliar as assimetrias econômicas e sociais.
A cidade tem que ser entendida como um campo dessa luta política, econômica e cultural, em relação às demandas e reivindicações da cidade real. Por isso, o enfrentamento dos conflitos é essencial para a construção de uma cidade tendencialmente democrática. É preciso interpelar os lugares comuns e a noção identitária, onde o consenso pode ser uma falácia, sendo o dissenso, a discordância, construtivos no reconhecimento e interpelação da cidade como lugar de vida. O conflito é legitimador na balança que pende as cidades desejadas em busca de uma nova hegemonia, sendo essencial combater a despolitização. É importante enxergar com lupas a crise da cidade; aí o papel essencial do movimento social. Aqui se insere a bem-vinda e salutar experiência do projeto ‘A Cidade Possível’, concebido pela professora Maria Thereza Azevedo, da UFMT. Ela veio acumulando interrogações e digressões nas intervenções de aproximação com os conflitos e dissensos na cidade de Cuiabá. Adota a prática de renovação pedagógica, saindo das redomas da academia para trabalhar a produção de conhecimentos em sua realidade cultural, o laboratório natural que é a nossa cidade. Maria Thereza abriu pertinentemente uma etapa do seu projeto, apresentando para reflexão e discussão a peça ‘Cidade dos Outros’, da dramaturga Juliana Capilé, ferina narrativa em palco sobre a disputa de pensamento da crise nas cidades e sua desumanização: a ligação com o mercado, a exclusão, a anomia, o abandono da perspectiva de retomada da dignidade humana. Não vai cair do céu a porta de saída desta condição, onde a hostilidade toma conta dos espaços urbanos.
É preciso criar, estimular uma conduta e possibilidade política para além do que parece inexorável as ciladas em que o jogo político encarcera a Cidade Possível; uma possibilidade de chegar a um patamar onde as relações éticas, de respeito e mesmo afetivas, nos coloquem compartilhando a existência. Um desafio a enfrentar, uma resposta que nas condições do estágio político-institucional que vivemos hoje, não é de curto prazo. É na política do cotidiano, desde a micropolítica, que os sentimentos podem engendrar mudanças. A política, que pode definir as novas possibilidades de vida digna nas cidades, é que pode mudar esse jogo perverso de gato e rato. Que representantes temos para atender estas demandas?

Waldir Bertúlio é professor da UFMT. E-mail: waldir.bertulio@bol.com.br



Aguarde! Carregando comentários ...


// leia também

Quarta, 08 de fevereiro de 2017

00:00 - Folias do agronegócio II

Quarta, 01 de fevereiro de 2017

00:00 - Conjuntura - Economia Dependente 3

Quinta, 26 de janeiro de 2017

00:00 - Folias do Agronegócio - 1

Quarta, 18 de janeiro de 2017

00:00 - Crise Internacional e o Capital - 2

Quarta, 11 de janeiro de 2017

00:00 - Conjuntura - A força ascendente do neoliberalismo I

Sábado, 07 de janeiro de 2017

00:00 - Feliz ano velho?

Sexta, 23 de dezembro de 2016

00:00 - Autos de Natal e Ano Novo

Quinta, 15 de dezembro de 2016

00:00 - Brasil: futuro incerto?

Quarta, 23 de novembro de 2016

00:00 - Racismo e Consciência Negra

Quinta, 17 de novembro de 2016

00:00 - Política, conservadorismo e resistência


 veja mais
Cuiabá, Sábado, 25/03/2017
 

WhatsApp Twuitter
WhatsApp

Fogo Cruzado waze

titulo_jornal Sábado, 25/03/2017
2b99420555f840ade4ddda35308cfb34 anteriores




Rádios ao vivo
  • cbn
  • cbn
Indicadores Financeiros
Dólar Comercial 3,1075 -0,90%
Ouro - BM&F (à vista) 124,20 2,26%
+ veja mais
Mercado Agropecuário
Boi Gordo @ 126,00
Soja - saca 60 kg 54,54
+ veja mais
Mais Lidas Enquete

Dentro de alguns meses, a Prefeitura de Cuiabá começará a multar carros que trafegarem pela faixa exclusiva de ônibus. Na sua opinião:



Logo_classifacil