Sexta, 23 de dezembro de 2016, 00h00

Autos de Natal e Ano Novo


Que tempos, que ano, que dezembro, que período tradicional de festas mais sombrio e ameaçador para o povo brasileiro! Reli recentemente a obra do sociólogo polonês Zigmunt Baumam, ‘Babel - Entre a incerteza e a esperança’. Foi o resultado de um diálogo com o escritor e jornalista italiano Ézio Mauro. A ideia que sustenta esta obra, é a do tempo do ‘INTERREGNO‘, significa o tempo entre o que não é mais e o que não é ainda. Na verdade, fala sobre o embate que vivemos aqui no Brasil dolorosamente, nesta crise da democracia, expressada ostensivamente na crise da representação política.
Zigmunt diz que esta crise deriva da crise de territorialidade do Estado Nacional. Seria então, uma discrepância entre o alcance global dos poderes que realmente importam para nossa vida, e as políticas de Estado, que deveriam confrontá-las. É que o Estado, que deveria proteger seus habitantes e defender seus interesses, não pode mais cumprir seus deveres e promessas na concepção que é conduzido. Porque? - simplesmente, não tem mais poderes necessários para isto.
A tolerância e o respeito às diferenças e a democracia são dois lados da mesma moeda, seus destinos seriam inseparáveis. São crises siamesas, a crise de um, é simultaneamente a crise do outro.
Democracia sem tolerância seria um ‘OXÍMORO’ (combinar palavras de sentido oposto, mas que reforçam a expressão‘). Neste sentido, a tolerância e o respeito às diferenças seria um pleonasmo. Quando a raiva e a indignação que contaminam grande parte do povo brasileiro nestes tempos tão difíceis, tornam-se insuportáveis. Porque ficam difusos, desfocados e indefinidos na torrente de problemas apresentados.
Coisas como a naturalização da miséria e das desigualdades, o racismo, a homofobia, a xenofobia, a intolerância religiosa, a intolerância ideológica, expressam a fragilidade da nossa condição humana (?!) e nosso próprio destino. Somos alfinetados cotidianamente (como a vergonha que a maior parte do povo tem do Congresso Nacional e dos políticos), pela miséria e impotência do status quo.
Bauman interpreta em seu pressuposto de interregno, é a reação e retomada de uma conduta para a construção de um futuro possível, diferente do que vivemos agora. Sim, temos que rascunhar os novos caminhos, aí definido o espaço entre o que não é mais, e aquilo que não é ainda. Penso que poderia acrescentar a isto, aquilo que deveria, ou poderia ser. Este é o grande desafio do nosso tempo. Este é literalmente o tempo do interregno, somos vergonha e incerteza, mas confiantes que podemos construir um futuro diferente. Estes autos de Natal e Ano Novo, são manchados pela ‘pós-verdade’. É o cenário onde a mentira, a meia verdade, podem virar na essência,veracidade. Claro, para aqueles que têm interesse de ouvir as verdades que lhes interessam.
 Sempre em favor de si próprios. Infelizmente pensam que podem legitimar mentiras de pernas longas! Assim, vivemos um dezembro fatídico, na crueldade da imposição de perdas para a sociedade, jamais pensadas. Em uma esquizofrenia política, distância abissal entre governantes, parlamentares e governados. Vivem em um mundo à parte. Capazes de condenar os idosos de hoje e do futuro à indigência, a morrerem à míngua, como toda a população trabalhadora. Seus partidos e mandatos (com raras exceções) servem a interesses privados.
Não duvido que a retomada da legalização do Lobby deixe de lado a tática insistente de descriminalizar o caixa dois e tantas falcatruas, crimes e criminosos ameaçados de condenação iminente. Pode ser outra tramoia na prática da Pós-Verdade.Tentarão de todas as formas manter os mandatos subordinados a interesses privados.
Triste Natal e Ano Novo, com a agenda que adentra 2017. Hanna Arendt argumenta que em tempos de crises (tão grandes quanto a que vivemos) é fecundo para criar novos caminhos, construindo outras concepções e ações políticas. Tendo à frente a esperança, ela é imorredoura. Assim, Feliz Natal!

Waldir Bertúlio é professor da UFMT. E-mail: waldir.bertulio@bol.com.br



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