16.07.2007 | 03h00
Meninas começam a praticar sexo aos 11 anos - entre a infância e a pré-adolescência - e quase sempre com homens mais velhos em muitos bairros pobres de Cuiabá. Essa realidade contraria um estudo em que os brasileiros perdem a virgindade com 17 anos, em média, segundo a pesquisa "A face do sexo mundial em 2007", encomendada pelo fabricante de camisinha SSL Internacional, que ouviu 26,1 mil pessoas em 26 países. À frente dos brasileiros está a Áustria.
No bairro Novo Paraíso 2, uma das regiões mais carentes da Capital, elas iniciam a vida sexual um ano após a primeira menstruação. Em 2006, quatro em cada dez gestantes atendidas pelo Programa de Saúde da Família (PSF) eram adolescentes a partir de 10 anos, segundo levantamento feito pela médica infectologista Vanja Bonna, especialista em Saúde da Família.
"Não me lembro de ter visto nenhuma dessas meninas ou a mãe achando ruim por causa da gravidez. Todas elas acham ótimo. Acho que só eu estou preocupada", comenta a médica.
O estudo que vai ajudar Vanja a coletar dados que avaliem o impacto e o comportamento da gravidez na adolescência, entre outras coisas, serve de alerta para a necessidade de iniciar a orientação sexual cada vez mais cedo em casa e na escola. Segundo a médica, as avós desses bebês também engravidaram cedo demais. Esse histórico e a falta de perspectiva das filhas "embaçam" a visão para as consequências da gestação em idade precoce.
"Elas não têm outra perspectiva senão casar, ter filhos, trabalhar de domésticas e não precisar mais morar com a mãe", opina. Essa seria a única explicação razoavelmente lógica
para a alegria das meninas diante da gravidez.
Vanja alerta que todas as pesquisas que conhece sobre o assunto apontam que os filhos de mães adolescentes estão muitos mais expostos a maus-tratos e desnutrição, entre outros riscos. "Não é por maldade, mas porque elas não têm preparo psicológico e nem maturidade para cuidar deles", explica.
Segundo a médica, não se pode atribuir a gravidez na adolescência à falta de informação. "Durante as consultas a gente percebe que a maioria conhece dois ou três métodos anticoncepcionais, mas ou usam de forma inadequada ou não usam".
Além de as meninas não usarem pílulas para evitar a gravidez, os casais mantêm relações sexuais sem camisinha, embora ambos sejam distribuídos gratuitamente nos postos de saúde.
"As pesquisas mostram que 50% não usam mesmo. Quem tem parceiro fixo, é ele quem não gosta de usar e muitas não usam porque querem mesmo engravidar", diz. O resultado do comportamento é que elas estão contraindo doenças sexualmente transmissíveis como sífilis e aids cada vez mais cedo.
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