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20.12.2017 | 06h30

Após 15 anos, João Arcanjo vai deixar a prisão

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Edson Rodrigues/TJMT

Na entrevista com a psiquiatra, Arcanjo afirmou que não quer mais ser reconhecido como "comendador" e reconheceu o "temor" que as pessoas tem dele

O resultado do exame psiquiátrico de João Arcanjo Ribeiro atestou que após 15 anos de reclusão ele está apto a deixar a prisão e progredir do regime fechado para o semi-aberto.

No exame realizado do último dia 13 de dezembro, a psiquiatra atestou que Arcanjo possui “baixo escore” de violência, reincidência e psicopatia, além de apontar que ele demonstrou ter estabelecido amadurecimento no tempo em que esteve preso. O exame psiquiátrico faz parte de uma série de avaliações que compõe o exame criminológico, um dos requisitos solicitados para que o juiz da Vara de Execuções Penais de Cuiabá decida sobre a progressão de pena, que deve acontecer apenas após o recesso judiciário.

Durante a realização do exame que teve 7h de duração, Arcanjo assumiu responder por vários crimes de ordem tributária e lavagem de dinheiro, mas em relação aos homicídios em que ele é apontado como mandantes, o ex-comendador afirmou que “(...) embora eu já tenha pago a sentença, nego que tenha sido o mandante”.

Conforme o laudo, Arcanjo “demonstra ter estabelecido um processo de amadurecimento e reflexão sobre si e seus atos”, diz trecho. No documento consta ainda que Arcanjo afirmou estar arrependido sobre seus crimes, que estava “cego” na época em que os cometeu, e que durante o tempo em que está preso foi possível fazer um reflexão sobre seus atos e o tempo perdido. “Quero reiniciar minha vida”, afirmou.

No laudo psiquiatra Luisa Forte Stuchi, afirmou que, o ex-comendador foi cooperativo, atento, respondendo ao que lhe era solicitado com respostas claras. Conforme ela, Arcanjo demonstra boa capacidade de frustração e fala sobre a reclusão sem se colocar como vítima. Ele ainda teria demonstrado empatia durante a entrevista, apresentou crítica sobre seus atos e arrependimento dirigido as consequências de sua vida, sua família e terceiros.

Arcanjo foi avaliado pela perita quanto à reincidências criminais e à probabilidade de violência em dois métodos. Em um deles, ele é avaliado em 10 itens correspondentes ao passado, cinco referentes ao presente e cinco em relação ao risco futuro. Nesse check-list, a avaliação é feita de zero a dois para cada item, sendo que zero representa a ausência do itens, nota um representa que o item está possivelmente presente ou presente de forma limitada, e nota dois quando o item está definitivamente presente. No final a pontuação total soma 40 pontos.

Na avaliação Arcanjo obteve 5 pontos e foi considerado com baixa probabilidade de novos atos de violência, responsável pela decisão de seus atos, total ciência do configura ato ilícito, que responderá por eles se infringir e que conhece as regras a serem respeitadas caso receba o benefício de progressão. Nos itens avaliados ele apresentou nota dois na questão de violência prévia e dois no quesito exposição a fatores desestabilizadores, e nota um no quesito estresse.

Chico Ferreira

Arcanjo retornou à Cuiabá neste ano

No segundo método onde se é avaliada a psicopatia, também é utilizado um check-list de 20 questões, com pontuação de zero a dois, somando 40 pontos. Nesse método a nota de Arcanjo foi seis, considerada baixa para a psicopatia, apresentando nota um em loquacidade/charme superficial, nota um em auto estima inflada, nota um na questão controlador e manipulador, nota um na questão de falha em assumir responsabilidade, e nota dois em versatilidade criminal.

Após a conclusão da avaliação, a psiquiatra sugeriu que caso Arcanjo receba a progressão, tenha um acompanhamento psicoterápico para auxiliar sua ressocialização. “Tendo Magistrado feito sua decisão, caso receba a progressão de regime, sugiro e considero importante que o reeducando realize acompanhamento psicoterápico para auxílio de sua ressocialização uma vez que permaneceu durante 15 anos em regime de reclusão”.

Planos futuros

Na avaliação ele revelou ainda que a forma que encontrou para não enlouquecer durante os 15 anos de prisão, sendo a maioria deles em penitenciária federal, foi mantendo uma atividade de rotina. Dentro dessas atividades ele chegou a realizar a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), leitura da bíblia, além de cursos oferecidos pelo sistema penitenciário e exercícios físicos rotineiramente.

“Cada dia dentro da prisão é uma eternidade, são 22h sem contato, sem poder se comunicar. (...) A forma de não enlouquecer era eu ter uma rotina diária, acordava de madrugada para lavar minha roupa, fazia minhas orações e lia a bíblia. (...) Criei uma meta de quantos livros e revistas tinha que ler por semana, minha filha disse que foi por isso que fui bem na prova do Enem e consegui pontuação para fazer alguma faculdade”.

Ainda durante a entrevista com a psiquiatra, Arcanjo afirmou que não quer mais ser reconhecido como “comendador”, e reconheceu o “temor” que as pessoas tem sobre ele. “Me arrependo dos maus que tenha causado as pessoas, eu não enxergava, não quero mais a figura de comendador, eu vejo que as pessoas mudam seu comportamento em minha presença e não quero mais isso para mim, quero apenas ser o João, curtir meus filhos e netos, mas sei que isso não foi criado de um dia para o outro e vai levar tempo para isso se desconstruir”. 

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