Publicidade

Cuiabá, Domingo 12/04/2026

Opinião - A | + A

24.02.2014 | 00h00

75 anos da A Voz d'Oeste III

Facebook Print google plus

A segunda grande guerra terminava em 1945, quando Cuiabá era uma cidade isolada no Centro-Oeste brasileiro, protegida pelo silêncio combinado docemente com os sons do trotear dos animais, com o farfalhar das ramagens exuberantes, com o repicar dos sinos, o assobiar preponderante do vento norte, o rodar da carroça, ou o fonfonar de algum automóvel. Compridas ruas, como a do Campo, a Barão de Melgaço, no período vespertino, tranquila e pouco movimentada, tempos depois, caminha a menina Marlene, portando caderno e gramática, rumando para as aulas do exame de admissão ao ginásio, com o antigo diretor geral da Instrução, Professor Francisco Ferreira Mendes. Ao longo dela, a paz e a quietude alimentavam o espírito, sob os eflúvios da valsa ouvida do programa de Felicitações da Rádio A Voz d’Oeste, presente nos lares cuiabanos, em audiência sentimental.

A Rádio, o termômetro da cidade, na lembrança do radialista Adelino Praeiro, compôs o cenário cuiabano, acolhendo as horas da pior indiferença política, ou nos momentos de regozijo, quando Júlio Müller inaugurou a primeira ponte sobre o rio Cuiabá, em 1942, com a presença de Getúlio Vargas; ou quando, com obras de prédios públicos, estradas, hospital e escolas, plantou Cuiabá para sempre como Capital de Mato Grosso,o qual não pode tolerar a tentativa ingrata da sua redivisão territorial. A Voz d’Oeste, desde o dia em que Antônio Gratidiano Dorileo, em sua residência avisou o fundador Jercy Jacob da audiência, à margem do remansoso e límpido rio Coxipó, foi sempre o coração pulsante da cidade. Ou Raul Santos Costa ou a Agência Migueis no Porto que telefonavam para aplaudir Último Adeus, valsa de Jercy Jacob. Porta voz cultural, em 1943, Estêvão de Mendonça, diariamente apresentava Notas Históricas, como um dos registros:‘Em 15 de outubro de 1939, às 20 h vibra pela primeira vez no céu cuiabano a onda sonora da A Voz d’Oeste, que se consolidou e constitui a soma da vida local. A locutora da primeira irradiação foi Soraida Rueda Jacob‘. Jercy, criador da primeira Rádio no Estado, como musicista e poeta, tinha, além dos conhecimentos de radioeletricidade, uma alma espiritualizada pelo humanismo. Compunha valsas com fluência do gênio - desconhecido em nosso sertão. Num encontro na sua residência, ao narrar as visões de uma noite para Juvenílio de Freitas, abraçou-o, presenteando-o com a partitura da valsa Sonho, com dedicatória ao amigo e primeiro locutor.

A população, ciosa pelas notícias do campo de batalha, onde estavam soldados cuiabanos nas geladas montanhas da Itália, também era descontraída com os programas lítero-musicais, através das ondas com prefixosPRH-3(ondas médias) e ZYZ5 (curtas), com Zulmira Canavarros ao piano, Ivo de Arruda ao violino, Décio Gama ao violão, Juvenílio de Freitas à flauta e Nino Ricci ao bandolim. Na casa da Egéria Cuiabana concentravam-se os ensaios, tendo nela a organizadora das composições musicais, que brotavam num lampejo nos treinos ou nos saraus. Conjuntos vocais apresentavam-se, como a saudosa Turma do Morro das décadas de 1940 e 50, ‘grupo tão harmônico quanto Quatro Ases e um Coringa‘, na apreciação do teatrólogo Procópio Ferreira. Deixaram saudades: Chiquinho, Jete, Pery, Gy e Rômulo; mais tarde os irmãos Ribeiro: Benjamim, Beni e Carlos. Ainda, Arnaldo Leite e Juarez Silva. Dava gosto nos regionais, o timbre das cordas do violão de João Jesus, no acompanhamento dos artistas.

Nessa integração social, a Rádio A Voz d’Oeste participava dos grandes acontecimentos cívicos e políticos, como na campanha do alumínio. Em 1943, participou da organização do Baile do Alumínio, promoção do Comando do 16º BC (hoje, 44 Btl Motorizado), cujo ingresso era um objeto do metal requisitado para construção de equipamento aeronáutico de guerra. O aluno militar, Luís-Philippe Pereira Leite, do NPOR, no dia 25 de agosto desse ano, lia na praça da República com transmissão pela Rádio, saudação especial ao Duque de Caxias, exaltando a Campanha. Outras tantas vezes, Dom Aquino Corrêa, presidente de honra do Instituto Histórico e da Academia de Letras, usava os microfones da Rádio nas sessões cívico-literárias ou no púlpito da Catedral Metropolitana.
Pela beleza histórica da A Voz d’Oeste, um dos esteios da organização social e política de Mato Grosso, é inconcebível desconhecer a sua existência. Há instituições e equipamentos sociais que necessitam de apoio e restauração para resguardar o patrimônio cultural, como é o caso desta emissora pioneira, em seus 75 anos de fundação.

Benedito Pedro Dorileo é advogado e ex-reitor da UFMT

Voltar Imprimir

Publicidade

Comentários

Enquete

Lei aumentou de 5 para 20 dias a licença-paternidade. Você acha um bom tempo?

Parcial

Publicidade

Edição digital

Domingo, 12/04/2026

imagem
imagem
imagem
imagem
imagem
imagem
btn-4

Indicadores

Milho Disponível R$ 66,90 0,75%

Algodão R$ 164,95 1,41%

Boi à vista R$ 285,25 0,14%

Soja Disponível R$ 153,20 1,06%

Publicidade

Classi fácil
btn-loja-virtual

Publicidade

Mais lidas

O Grupo Gazeta reúne veículos de comunicação em Mato Grosso. Foi fundado em 1990 com o lançamento de A Gazeta, jornal de maior circulação e influência no Estado. Integram o Grupo as emissoras Gazeta FM, FM Alta Floresta, FM Barra do Garças, FM Poxoréu, Cultura FM, Vila Real FM, TV Vila Real 10.1, TV Pantanal 22.1, o Instituto de Pesquisa Gazeta Dados e o Portal Gazeta Digital.

Copyright© 2022 - Gazeta Digital - Todos os direitos reservados Logo Trinix Internet

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem a devida citação da fonte.