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05.03.2017 | 07h39

A longa caminhada

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A população brasileira cultiva em seu imaginário coletivo a ideia de que o presidente da República é o verdadeiro representante do povo, sendo o depositário de todas as esperanças, fato que acaba deixando outras peças da engrenagem política em segundo plano. O mito do Salvador da Pátria é forte em nossas plagas.

Quando o governante tem índole popularesca, esse sentimento chega ao pico. Lula é o exemplo. O fato de ser um palanqueiro militante, incansável na arte de mistificação das massas, o torna um ente sempre bem lembrado por contingentes que guardam em suas cacholas a feição barbuda, a voz rouquenha, o palavreado repleto de imagens populares que enfeitam seu retrato. Não é a toa que pontua alto em pesquisas de opinião.Luiz Inácio continua a não perder a oportunidade de fazer chiste, vestir o manto da luta de classes, atirando verbos e adjetivos contra adversários.

A militância petista fica extasiada. Lutou para inculcar na mente dos brasileiros o sentimento de que o País, pela primeira vez, teve um presidente que saiu do meio dos pobres. Alargando veredas dos movimentos organizados, inaugurou o ciclo de participação social no processo político. Nossa democracia de massas ganhou impulso. A inclusão social foi elevada à condição de bandeira principal do lulodilmismo. Mas o ciclo petista acabou arrombando os cofres públicos. Acolheu vasta teia de corrupção, a partir do mensalão, seguido pelos eventos que devastaram os dutos da Petrobras.

O Brasil tomou um susto. A Operação Lava Jato, em curso, passou a ser a marca de uma era. Responsabilidade, transparência, ética, mérito, seriedade no trato da coisa pública são valores jogados na cesta do lixo. As ruas clamam por assepsia na política e na administração. Um novo governante assume o comando da Nação sob um conjunto de compromissos: conter gastos, rediscutir o pacto federativo, viabilizar um novo sistema previdenciário, modernizar a legislação trabalhista, implantar novos padrões na política.

Reforça a construção da governabilidade com o endosso ao presidencialismo congressual, a alternativa de feição parlamentarista. Longe do figurino de Salvador da Pátria, decide encampar as reformas necessárias ao desenvolvimento do país.

No terreno da economia, o dicionário contém novas palavras de ordem: recuperar a força da produção, resgatar a confiança de investidores, abrir diálogo com empreendedores. Ancorado em forte apoio das bases congressuais, tenta implementar vigoroso processo de reestruturação das contas públicas.

E preencher os vazios abertos por políticas populistas com programas de caráter estruturante. Como é sabido, ao longo de décadas, o país tem sido governado ao sabor de programas que, passado o primeiro impacto, são abandonados. Foi assim com o Programa Fome Zero. Tem sido assim com o tal Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que na era Lula foi apresentado como o maior pacote de obras a se realizar, embalado pela fabulosa soma de mais de R$ 500 bilhões.

E assim o Brasil vai perpetuando suas mazelas. A falta de continuidade administrativa é outro grande gargalo a expandir o Custo Brasil. O que os governantes fazem em seus períodos no comando dos entes federativos (União, Estados e Municípios) é desmontado pelos sucessores. Por isso mesmo, o país avança a conta gotas.

Os programas são ornados com as flores de um marketing que faz loas aos protagonistas partidários. É verdade que a social democracia dos tempos de Itamar/FHC abriu os caminhos da modernidade institucional. Mas o petismo, ancorado no velho paradigma da luta de classes, acabou acirrando o ânimo nacional. Assistimos na última década uma luta esganiçada com foco na divisão do país em dois blocos: nós e eles; petistas, os mocinhos, e eles, os bandidos.

De um lado, o governo petista pode até registrar o mérito de ter realizado o maior programa de redistribuição de renda da contemporaneidade, com inserção de 30 milhões de brasileiros no patamar das classes médias. Mas destruiu o que fez. O governo Dilma enterrou a conquista.

O individualismo das gestões; a falta de continuidade administrativa; a polarização do discurso político, com incentivo ao apartheid social; o descompromisso com projetos de longo prazo; a falta de coragem política para fazer as reformas fundamentais acabam imprimindo à administração uma feição frankesteiniana. A própria Constituição Cidadã é responsável, em parte, pelos vazios que se observam na modelagem institucional.

O acervo de emendas constitucionais tem quase o mesmo número de páginas que o exemplar nascido em 88. O gigantesco escudo social que ali se formou tem a imagem de um queijo suíço. Buracos por todos os lados. Um sindicalismo de caráter oportunista monta acampamentos permanentes na Esplanada dos Ministérios. Sua meta: continuar mamando nas tetas do Estado. Visões de curto prazo imperam. As gestões são centradas na popularidade. A máquina estatal foi completamente partidarizada na era petista quando os cargos se tornaram feudos de partidos.

Estes são ligeiros traços da paisagem institucional. Por isso, toma corpo a ideia de que este é o momento da grande arrumação. Como começar ? Pela redefinição e/ou redistribuição de competências e recursos entre os entes federativos, União, Estados e Municípios. O país precisa encontrar mecanismos que o faça suportar suas crises periódicas.

O populismo precisa ser banido de maneira definitiva do mapa nacional. Não seremos uma Pátria forte enquanto o divisionismo de fundo radical/partidário continuar a se infiltrar nas veias da Nação. Por isso mesmo, o governo Temer poderá ser um divisor de águas nos ciclos governativos. Pacificar o país, resgatar a força da economia, encher os pulmões da sociedade com a seiva da auto-estima – são algumas veredas da longa caminhada.

Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

 

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