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20.05.2003 | 03h00

Crônicas de Nelson Rodrigues

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Considero Nelson Rodrigues o melhor cronista brasileiro dos últimos tempos. Ler suas crônicas, publicadas durante anos em O Globo, e que está desde algum tempo em livros, é um barato, como se dizia na década de 1960.

Naquela época ele era um amaldiçoado pelos alunos de universidades e pela esquerda em geral. Eu, por exemplo, o considerava reacionário, nunca o lia. Aliás, não lia nem o jornal onde ele escrevia. Era considerado da direita e entreguista. Só fui descobrir o cronista Nelson depois da publicação da biografia dele, "O anjo pornográfico" por Rui Castro. Vi então quanta besteira falei antes sobre alguém que eu nunca lera, seguia a corrente de ser contra só porque ele batia duro na esquerda naquele momento.

Depois Rui Castro publicou as crônicas de Nelson Rodrigues e são essas que estou relendo. E é um achado. Aliás, o próprio Nelson, em uma dessas crônicas, diz que "o mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Nada é mais denso que a releitura". Não tem jeito de não concordar com ele. Suas crônicas podem ser lidas separadamente. Pode-se abrir a coletânea delas e escolher qualquer uma.

Ele escrevia uma crônica ou, se preferir, um artigo por dia naquele jornal carioca. Falava de tudo, principalmente, como deve ser uma boa crônica, do que estava acontecendo ao seu redor, seja na política, no meio cultural, nas coisas do esporte ou até um crime passional. Tem uma enorme facilidade para escrever. Brinca com as palavras e com os parágrafos. Dou alguns exemplos.

Ele está lá falando de alguma coisa. Diz que "a atriz era Olivia de Haviland. Não, não era ela, era a irmã da Olivia, cujo nome não me ocorre". Lá na frente lembra do nome da irmã e o coloca no correr já de outro assunto. E encaixa magnificamente. Tem hora que ele diz que "nem sei porque estou escrevendo isso". Aí lembra o que era e toca o barco normalmente. Noutra crônica diz que "falo, falo e não sei porque estou dizendo tudo isso. Ah, agora me lembro". Escreve como se estivesse conversando num bar.

Outro exemplo de como se escreve uma crônica. Ele diz "esse é um episódio que contei três ou quatro dias atrás. Se você não lembra, conto outra vez". E conta, acrescentando pitadas novas. Em outra, fala que "a barriga do Chacrinha é uma paisagem. Digo isso e paro. Não ia começar com o homem da buzina, sim com Dostoievski, Chacrinha fica para depois". Num articulista comum, e me incluo, a gente apagaria tudo sobre o Chacrinha e entrava só no autor russo sem mostrar a habilidade de um Nelson.

Um dos achados sobre sua maneira peculiar de escrever é que ele bate nele mesmo. Isso o torna mais simpático. Fala de sua úlcera, que é tratada "a pires de leite", de suas invejas, dívidas, temores e admirações com graça. Conta o caso de quando a professora descobriu piolho nele e o coloca em frente à classe. Aquilo o marcou para a vida. Ele podia esconder mas o conta de uma forma que agrada.

A crônica não é só sobre temas grandões, pode ser sobre coisas simples. De assunto que a gente pensa que não pode sair nada. Tem muitas dessas. Sobre uma morte por atropelamento, um amor impossível, uma frase dita por alguém, até sobre um sanduíche de pão com o ovo. Na escola, mais pobre que os outros, Nelson levava uma banana. Outros colegas levavam ovo com pão. Ele se babava. Mais tarde, já velho, chegava em casa, com jantar já posto, falava para a esposa que queria só pão com ovo.

Um dos itens mais interessantes em suas crônicas são as frases que cria no decorrer delas. Estou recolhendo algumas. Talvez faça um artigo só sobre elas. Não são só aquelas conhecidas como óbvio ululante, idiota da objetividade, um calor que derretia catedral, padre de passeata ou outras conhecidas. Tem muito, muito mais.

Alfredo da Mota Menezes escreve em A Gazeta.

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