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Opinião - A | + A

09.04.2006 | 03h00

Cuiabá na década de 1970

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Ontem foi aniversário de Cuiabá. Provocado pelos acontecimentos em torno da data me peguei pensando em coisas que aconteceram aqui nos últimos anos. Cada um tem seu enfoque, tenho o meu.

A chegada e a influência da televisão, por exemplo. O impacto disso na vida cotidiana local foi enorme. A linguagem que chegava era a do Rio e S. Paulo. Choca com a daqui. Haverá uma mudança, as pessoas pareciam envergonhadas de falar como antes. Quem recuperou isso mais tarde foi o Liu Arruda com seus personagens irreverentes.

A televisão também muda o hábito das pessoas que sentavam em cadeiras colocadas nas calçadas à noite. Todos vão para dentro assistir às novelas e os noticiários. Saem das calçadas também por causa do aumento da criminalidade pelo crescimento rápido da população local.

Em 1970 não se assistiu à Copa do Mundo diretamente pela televisão como no resto do país. Era em vídeo no outro dia. Tinha gente que achava até bom: bebia duas vezes. Ouvindo pelo rádio e assistindo no outro dia pela televisão.

As novelas também não eram diretamente. Quando uma pessoa retornava de viagem a outros estados se tornava centro de atenções por antecipar o que ia ocorrer nos capítulos vindouros. Na verdade, o impacto da televisão na mudança do comportamento local ainda não foi estudado de forma adequada.

A UFMT trouxe outro impacto. Saíam antes para estudar aqueles que tinham condições financeiras. A maioria ficava aqui. Com uma universidade pública a coisa mudou bastante. E, além dos jovens daqui, outros vinham de partes diferentes do Estado. Foram formando e sendo aos montes empregados em serviços públicos.

Laços de amizade, compadrio, política partidária, maçonaria ajudam a conseguir empregos. Não era necessário fazer concurso. Isso ocorre depois da Constituição de 1988. O poder público ficou inchado. O Estado quebrou. Só foi resolvido mais tarde com reformas e vendas de empresas públicas.

A maçonaria foi uma das instituições que se adaptaram à nova realidade da cidade. Aumentou os seus quadros com muita gente de fora. Alguns elogiam a decisão, outros criticam.

Os que acham que foi uma atitude correta alegam que se expandiu a entidade no momento oportuno. Outros entendem que essa abertura provocou divisões e o aparecimento de novas lojas e que isso enfraqueceu a entidade. A verdade é que ela não tem a mesma força que teve naquele período.

Como a avalanche de gente de fora era muito grande, como atos e costumes estavam sendo afetados, muitos cuiabanos se colocaram em defesa das coisas daqui. Na poesia, Silva Freire é um dos nomes que fizeram isso. Surge o Muxirum Cuiabano ou a tentativa de oficialmente lutar para manter certas tradições da localidade.

A presença de gente de fora era tamanha que lembro de um cuiabano mais idoso dizer que só confiava em telefones que tivessem o prefixo 321 ou 322. Daí para frente era de gente de fora, do qual ele desconfiava. Dizia que não tinha mais tempo e paciência para fazer novos relacionamentos.

Aliás, muitos acham que a famosa hospitalidade cuiabana, naquele específico momento, não foi tão forte como antes. A explicação outra vez é a quantidade de gente e costumes que chegara aqui de uma hora para outra. Não dava para abrir portas e corações como se fazia antes.

Com o passar do tempo as coisas foram se ajeitando. Ainda tem muita gente na defensiva. Isso reacendeu agora depois dos cuiabanos perderem também o poder político. Há uma reação nesse sentido e que acho que terá ainda reflexo na eleição deste ano. Talvez pela última vez.

Mas os fatos mostram que surge um novo cuiabano. De uma Cuiabá já mais inserida no mundo globalizado. É na mistura de gente, idéias e atitudes que surge uma nova geração com comportamento diferente da Cuiabá de antes. A união dos daqui com os de fora é que dará a cara futura desta cidade.

Alfredo da Mota Menezes escreve em A Gazeta às terças, quintas e aos domingos. E-mail: pox@terra.com.br

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