17.07.2006 | 03h00
A Divina Comédia, do florentino Dante Alighieri, é fantástica. Este poema, concluído em 1321, narra a viagem do autor, guiado e protegido pelo poeta Virgílio, que veio do limbo para conduzi-lo pelos nove círculos do hades. Virgilio ainda o acompanha ao purgatório e o leva, finalmente, ao paraíso.
Dante narra cenas inimagináveis das punições aos pecadores em cada anel do inferno. No segundo anel, que é onde realmente começa o inferno, estão os luxuriosos, no terceiro sofrem gulosos, no quarto os avarentos purgam seus pecados, no quinto são punidos os iracundos, no sexto os hereges, no sétimo os agiotas e os homossexuais e no nono os traidores.
Daí originou o termo dantesco para qualificar as coisas terríveis, infernais, diabólicas e dores extremas, como bem o usa Castro Alves, para falar dos sofrimentos absurdos dos escravos nos navios negreiros:
Era um sonho dantesco... O tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar do açoite
Legiões de homens negros como a noite
Horrendos a dançar.
Lembrei Virgílio, Dante Alighieri e Castro Alves para falar de outro Dante, o Martins de Oliveira, que viveu nos últimos anos de sua vida um inferno dantesco. Sim, porque para um político a falta do aplauso e reconhecimento do povo dói mais que o fogo queimando a alma no mais brutal e horrendo círculo do inferno.
Se houver céu, como crêem os cristãos, e se as ações do ex-governador Dante forem tão boas como querem os seus admiradores, ele certamente estará, agora livre do inferno, desfrutando no paraíso, talvez em seu quarto ou quinto círculo, merecido repouso.
De lá ele vê que sua vaga no inferno pode ser ocupada pelo arqui-rival Maggi, que corre o risco de perder o apoio do povo que ainda o apóia. A razão é simples, o político Dante partiu num clima de grande consternação, aclamado como herói injustiçado e incompreendido. O vilão escolhido como culpado pelas injustiças foi o governador do Estado por ter acusado o ilustre partinte de pecados que por enquanto não foram comprovados.
Agora o governador se fugir de Sila não escapa de Caríbdis, dois monstros marinhos que, segundo a mitologia grega, aterrorizavam os navegantes. Ou dito de forma diferente, não convêm elogiar alguém que tanto criticou e nem pode criticar quem não está mais aqui para se defender, mas que deixou uma legião de antigos seguidores além de milhares de novos convertidos, condoídos pela morte precoce do conhecido líder.
Nada sugere que a enorme vantagem que as pesquisas de intenção de votos dão ao atual governador seja concreta e confiável. Nós eleitores somos uma boiada mansa que, em manada, segue bovinamente uma rota quase previsível. Basta, entretanto, um gesto brusco, uma folha de papel que o vento agita ou uma ave estridente que voe assustada para provocar um estouro incontrolável. Aí não há quem cerque a louca corrida.
Já vimos isto acontecer várias vezes e nada impede que aconteça de novo. Uma viúva inconsolável no palanque e um orador como o senador Antero podem mudar o humor dos eleitores e interromper o sonho presidencial do atual governador.
Renato de Paiva Pereira é empresário em Cuiabá. E-mail: renato2p@terra.com.br
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