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27.03.2007 | 03h00

Do mitológico ao pseudocientífico

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Gostaria de discutir neste texto, ainda que sucintamente, alguns elementos que me chamaram a atenção no artigo denominado "Por que atingimos o caos na saúde?", de J. F. Feltrin, veiculado recentemente por este jornal.

Tendo em vista o título, é propósito do autor não só apresentar a raiz da problemática nos sistemas de saúde, bem como apresentar soluções.

Lançando mão de expressões próprias do senso comum: "O caos vivenciado pelo sistema de saúde no país é de conhecimento público", o autor abre seu texto, pensando estar comunicando algo.

Pouco adiante, apresenta sua tese, qual seja: de que o caos é o elemento criador. Agora já não mais um deus é a explicação da criação, mas o caos todo-poderoso.

Em seguida, para reforçar sua idéia, ou seja, "do poder criativo do caos", nos apresenta três exemplos totalmente deslocados e descontextualizados: primeiro nos diz que para chegarmos à democracia, foi necessário a existência do absolutismo com sua falta de liberdade. Em seguida, nos fala que as leis trabalhistas foram criadas como conseqüência da exploração da Revolução Industrial. Por fim, diz que para que existisse a declaração dos direitos humanos foi necessária a Segunda Guerra Mundial.

Desgraçadamente, nosso autor, que demonstra conhecer pouco ou nada de história, enxerga o mundo a partir de uma perspectiva totalmente Ocidental e, ainda mais, absolutamente incrítica. Sua visão de mundo ao que parece despreza toda experiência anterior ao século XVI. Ele se esquece, ou não sabe, talvez, que muito antes já havia a humanidade experimentado a democracia. Por exemplo, no comunalismo primitivo ou na Grécia antiga com a aplicação da Carta de Licurgo. Por outra parte, não me parecem democrática as ditaduras militares que estouraram em vários países da América na segunda década do século passado.

Lastimavelmente, nosso voluntarioso autor não sabe ou talvez negligencie o fato de que as leis trabalhistas não foram criadas do caos da Revolução Industrial, mas fruto de árduas lutas das classes trabalhadoras. Esses direitos, portanto, não foram trazidos em bandeja de ouro por um certo messias provincial ou outro ente criador, mas fruto de muito suor, sangue, e lágrimas.

O texto, que segue recheado de lugares comuns e um português mal digerido, atinge uma conclusão negada de todo raciocínio: "A constatação do caos gera uma esperança". Eis aqui o protumpseudo de suas idéias. Isso talvez espante o leitor, mas não poderíamos esperar conclusão menos absurda quando se parte de premissa igualmente absurda.

Para dar um verniz científico o autor nos apresenta o que chama de método ABC (Custeio Baseado em Atividades), que, segundo suas palavras, é um método que permite o gerenciamento e controle dos gastos. Isso nada mais é que uma nova ferramenta forjada com o claro objetivo de reduzir investimentos.

Mas o que efetivamente se esconde por trás desse discurso aparentemente científico? Privatização é claro. Eis porque diz ele ser a "gestão" a raiz dos problemas enfrentados pela saúde. É sintomática a utilização de termos como: "apuração de custos", "gerenciar custos", ou ainda "satisfação do cliente", elementos esses integrantes do discurso da pedagogia empresarial, já que agora, o Estado mais que nunca é entendido como uma grande empresa e bem por essa razão deve contar com gestores capacitados que queiram ousar para que seus clientes possam se sentir satisfeitos.

Honestamente, se o ilustre autor de fato quisesse chegar à raiz de toda precarização em voga não só no sistema de saúde, mas na educação e em geral na qualidade de vida, deveria reflexionar sobre que papel o Estado tem prestado na garantia e manutenção desses direitos essenciais. Ou o que significa, por exemplo, o aumento do tal superávit e suas conseqüências nefastas para a população.

Portanto, para entender um problema dessa magnitude, é necessário compreender o atual modo de produção, bem como entender que lugar ocupam as agrupações humanas no sistema capitalista.

Antônio Carlos Pechim Neiva é graduado em Letras e servidor público lotado na Secretaria de Estado de Saúde

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