23.11.2009 | 03h00
Vamos continuar a conversa que iniciamos na semana passada sobre o fim do comunismo na Europa, quando se comemora o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim. Seguimos com a entrevista que fiz com o professor britânico Archie Brown, que passou 40 anos dando aulas sobre comunismo na conceituada Universidade de Oxford, autor do livro recém-lançado "Ascensão e Queda do Comunismo".
Ele já nos disse que o sistema ruiu por razões internas, por ter apodrecido por dentro e se mostrado incapaz de levar à frente reformas que o líder soviético Mikhail Gorbachev pretendia realizar. A decisão do novo líder do Kremlin de acabar com a prática soviética de reprimir movimentos de reforma nos países comunistas vizinhos levou ao crescimento da dissidência e das pressões para mudar. A queda do Muro de Berlim foi o simbolismo maior do esfacelamento do sistema na Europa, o que ocorreu nos meses seguintes, até o fim da própria União Soviética, em dezembro de 1991.
O comunismo ainda sobrevive sob formas variadas, criativas ou distorcidas em locais como Coreia do Norte, Laos, Vietnã e Cuba, sem esquecer da China, com sua versão híbrida de controle político sob um partido único, que ainda se diz marxista-leninista-maoísta, porém ninguém acredita, pois a economia, embora muito regulada pelo estado, é capitalista.
Carta da Europa - Seu livro defende a tese de que Gorbachev optou por reformar primeiro o lado político do sistema, exatamente ao contrário do que os chineses decidiram. Ao fazer isso, o senhor diz que ele acabou com o monopólio do poder do partido, se recusou a adotar medidas repressivas e terminou perdendo o controle da situação política.
Archei Brown - Gorbachev queria fazer reforma econômica também, mas isso era muito mais difícil na União Soviética do que na China, onde a Revolução Cultural dos anos 60-70 tinha destruído a burocracia chinesa, eliminando, assim, um forte bloco de resistência a mudanças. Ele começou então a abrir o sistema político e, no processo, se deu conta que o monopólio do partido e sua rígida disciplina interna eram um obstáculo à democracia, que ele cada vez mais apreciava e queria implantar em seu país.
CE - Essa não foi uma enorme transição política pessoal para quem fez carreira no partido comunista e atingiu o posto máximo?
AB - Quando chegou a secretário-geral, em 1985, Gorbachev achava que o sistema era reformável. Ele continuava a se considerar um socialista, mas passou a adotar uma linha mais social-democrata do que marxista. Ele não podia anunciar isso para o mundo, mas para os mais chegados ele se disse próximo de líderes social-democratas como o alemão Willy Brandt e o espanhol Felipe González, este o seu político estrangeiro favorito.
CE - A linha dura dos comunistas tradicionais soviéticos não gostou das reformas de Gorbachev e tentou revertê-las via golpe de estado, numa ação em 1991, que se revelou de extrema incompetência na execução. Mas poderia ter dado certo, se os líderes fossem mais capazes?
AB - Sim, poderia ter dado certo em preservar o regime por mais alguns anos. Mas demoraram demais para agir. Talvez o golpe desse resultado se tivesse ocorrido uns dois anos antes, e no inverno, para evitar que as pessoas se concentrassem na rua, como fizeram, sob a liderança de Boris Yeltsin em cima de um tanque à porta do Parlamento. Quando tentaram o golpe, Gorbachev já tinha sido eleito presidente em eleições populares. Tinha legitimidade. E também já tinha agido para conquistar ou cooptar alguns membros da linha-dura, o que minou o apoio aos golpistas.
CE - O sistema se esfacelou e a União Soviética deixou de existir no final daquele ano. Mas o comunismo poderia ter durado algum tempo mais?
AB - Poderia ter durado várias décadas, não só na União Soviética, mas também na Europa Oriental. Em certo sentido, foi a reforma que produziu a crise e não uma crise que produziu a reforma. A União Soviética tinha muitos problemas em 1985, mas não vivia uma crise profunda, como ocorreu cinco anos depois. Se outro Brejnev ou outro Andropov tivesse assumido em 1985, em vez de Gorbachev, o sistema poderia ter continuado por mais tempo. CE - Por que Gorbachev não conseguiu realizar primeiro as reformas econômicas, como fizeram os chineses? O país fabricava mísseis, mas não conseguia produzir uma geladeira decente, o que afetava a qualidade de vida da população.
AB - Não era fácil realizar reformas econômicas, porque a resistência era grande. Havia muitos ministérios cuidando da área, havia órgãos do partido encarregados da economia, havia gerentes e administradores de fábricas pelo país inteiro tão dependentes do sistema que resistiam a mudanças. A China era um país agrícola, onde bastou liberar o campo para produzir o que quisesse e vender no mercado. A Rússia não era assim.
CE - E no sentido contrário: o comunismo na Europa poderia ter acabado antes da queda do Muro de Berlim? Afinal, houve sérias rebeliões populares em 1953 em Berlim e 1956 em Budapeste, tivemos as tentativas de reforma em Praga em 1968, depois veio o movimento sindical Solidariedade na Polônia. Ou seja, não faltaram tentativas, mas nenhuma levou a uma mudança do regime. Por que fracassaram?
AB - O comunismo na Europa poderia ter acabado bem mais cedo. O que o manteve foi a determinação da União Soviética em sustentar esses regimes à força, com tropas e tanques quando necessário. Até que Gorbachev declarou publicamente que não faria mais isso.
CE - Falamos de Gorbachev, mas que outras personalidades tiveram influência da queda do comunismo europeu: o polonês Lech Walesa, o papa João Paulo II, até mesmo o presidente Ronald Reagan e a direita americana, com sua disposição de gastar mais na área militar?
AB - É um exagero dizer que Reagan acabou com o comunismo, conforme a direita americana tentou promover. De certa forma, ele até deu força à linha-dura na União Soviética. Ele começou agressivo com os soviéticos, lidou com quatro líderes em Moscou e nada mudou. Só a partir da ascensão de Gorbachev é que ele passou a dialogar com o Kremlin, e aí o crédito pelos avanços não é dele e sim de Gorbachev. O papa polonês foi uma fonte de inspiração para movimentos de reforma, sobretudo na Polônia, com Walesa. Mas aí também, nada mudou até a chegada de Gorbachev.
Silio Boccanera é jornalista em Londres (Inglaterra) e escreve em A Gazeta às segundas-feiras. E-mail: silioboccanera@aol.com
Publicidade
Publicidade
Milho Disponível
R$ 66,90
0,75%
Algodão
R$ 164,95
1,41%
Boi à vista
R$ 285,25
0,14%
Soja Disponível
R$ 153,20
1,06%
Publicidade
Publicidade
O Grupo Gazeta reúne veículos de comunicação em Mato Grosso. Foi fundado em 1990 com o lançamento de A Gazeta, jornal de maior circulação e influência no Estado. Integram o Grupo as emissoras Gazeta FM, FM Alta Floresta, FM Barra do Garças, FM Poxoréu, Cultura FM, Vila Real FM, TV Vila Real 10.1, TV Pantanal 22.1, o Instituto de Pesquisa Gazeta Dados e o Portal Gazeta Digital.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem a devida citação da fonte.