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28.09.2009 | 03h00

O farisaísmo político e pessoal

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O Evangelho nos traz considerações sobre o procedimento dos fariseus, relata Mt no cap.23: "...dizem e não fazem. Atam fardos pesados e esmagadores e com eles sobrecarregam os ombros dos homens, mas não querem movê-los sequer com o dedo..." Impõem para outros o que não vivem. Esse proceder pode ser estendido a muitos dirigentes das nações e são causas de conflitos mundiais. Rui Barbosa, com sua sabedoria, dizia que os interesses comerciais é que ditavam os rumos da política internacional. Passemos à aplicação da lição farisaica. Retornemos a um passado recente. Vimos os EUA em confronto com o Irã dos Aiatolás, após a queda do regime monárquico, país por ele armado com a venda dos modernos caças de combate, no período de relacionamento normal. O Iraque declara guerra ao Irã e parte para o confronto militar. E assim o faz conduzido por Sadam Hussein e municiado, no momento, das relações amistosas, por armas, fornecidas, em parte, pelos EUA.

A agressão termina mal, com o agressor repelido, parcela de seu território invadido, milhares de mortos, só conseguindo se livrar de uma derrota mais fragorosa com o cessar-fogo conseguido a duras penas pela mediação da ONU. O que veio a suceder na sequência é injustificável. Após, uma série de divergências, o Iraque, então aliado, passa a ser inimigo e acaba sendo invadido, através de um pretexto falso, de estar armazenando armas químicas de destruição em massa, quando se denotou, vestígios, ao menos razoáveis, de ser o móvel da invasão, o insubstituível petróleo, do qual o vice-presidente, da grande potência, vem a ser uma expressão e com interesses próximo da região. Enfim, antes amigo, interesses contrariados, transfiguração para inimigo. Voltemos ainda para um passado mais distante. Hitler é derrotado.

Seus cientistas como Von Braum e outros, que possibilitaram a construção dos foguetes V1 e V2 varrendo Londres matando milhares de pessoas, bandeiam-se para os EUA e ali são recebidos, protegidos e passam inclusive a trabalhar nas estações espaciais, possibilitando a colocação de foguetes no espaço sideral e enfrentando a corrida armamentista espacial com a União Soviética. Antes titulados quase como criminosos de guerra, depois, lotados na grande potência, só faltaram ser homenageados como defensores da paz. Sua subserviência mudara de lado. Assim sucedeu, também, com outros criminosos de guerra, espiões, vindo à tona, recentemente, a verdade no julgamento de Klaus Barbie, o carrasco nazista, que mandou centenas de crianças judiais para a câmara de gás da França ocupada. Após a guerra teve a proteção e se colocou à disposição dos serviços de inteligência dos EUA. Só quando preso e condenado à pena perpétua a verdade veio à tona. Que tristeza!

E os exemplos se somam. Destroem suas florestas, prosseguem mandando centenas de toneladas de lixo químico para o espaço, procedimento do qual se repele controle a nível mundial, diminuindo a camada de ozônio, mas situam o Brasil como único vilão, por estar possibilitando a dizimação das suas florestas, sendo que elas teriam a obrigação de filtrar a poluição, contínua, despejada no espaço. A prevalência maior é das indústrias poluidoras, dos valores comerciais. Podem seus proprietários dizer "que se dane a população mundial!". Por que não se controla a poluição, especialmente das indústrias dos EUA, China e Índia, os maiores poluidores mundiais? No Brasil, em campanha e até se adquirir o poder, partidos têm como bandeira o combate à corrupção. Mas, a este alçado ela torna-se uma rotina. Do púlpito se fala em honestidade e no exterior tem-se uma conta clandestina.

Criticava-se ferozmente as medidas provisórias, "elas não traduziriam uma forma democrática de governar", mas delas se fazem ainda maior uso - os aumentos dos impostos sufocariam o desenvolvimento, mas a carga tributária cada vez mais aumenta -, combatia-se a eternização do poder, mas se pudessem imitariam o exemplo. Isso tudo vem a ser o farisaísmo. Como é fácil criticar, o difícil é viver o que se prega. Regras, sim, mas, para os outros! Para nós, para nosso país, não! Apenas de boca para fora tudo é tão bom.Viva o farisaísmo.

Licínio Carpinelli Stefani é desembargador aposentado do TJMT, advogado e escreve em A Gazeta às segundas-feiras. E-mail: liciniocarpinelli@cfadvocacia.com.br

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