23.12.2004 | 03h00
O programa humorístico Os Aspones, exibido pela Globo e encerrado na semana passada, trouxe muito mais que o bom humor de volta às noites de sexta-feira, mas uma realidade que existe em todos os setores do mercado de trabalho, sejam eles públicos ou privados. Obviamente, e pelo justo motivo de ter colocado a verdade diante de nossos olhos, o programa terminou sob uma saraivada de críticas.
Ambientada em Brasília e enfocando indivíduos pagos pelo contribuinte que, por causa do pouco que têm a fazer, se dedicam a falar mal dos outros (e também do chefe e dos próprios colegas) a série criou polêmica antes mesmo de começar. Fernanda Young e Alexandre Machado, os criadores, se defendem argumentando que a situação dos aspones é especial.
Mas, como diz o ditado, por trás de uma mentira há um fundo de verdade. Se a situação mudou, o passado do serviço público ficou marcado em nossas consciências a ponto de algumas particularidades terem sido reconhecidas tão logo a série foi levada ao ar. Afinal, quem nunca se viu, naquela hora de extrema necessidade e pressa diante de inúmeros funcionários do outro lado do balcão, alguns lixando as unhas, outros analisando catálogos de cosméticos ou batendo papo no telefone? Quem nunca enfrentou as famosas filas, burocráticas e em quantidade impensável, para concluir um serviço não menos burocrático? Fila para pegar o papel, fila para carimbar o papel, fila para ter o papel assinado, fila para receber o documento...
Quando levou para a televisão a hilária rotina de um casal moderno, mas meio amalucado como Os Normais, ninguém reclamou da falsidade, dos pensamentos quase sempre imersos no universo sexual ou do oportunismo dos personagens. A série fez tanto sucesso que foi parar no cinema. Mas Os Aspones é muito mais real e por isso mesmo é possível aprender com ele, tanto com os pontos negativos (o excesso de funcionários, a consequente falta do que fazer e os horários intermináveis de almoço que ainda imperam em muitos locais de trabalho) quanto os positivos.
"Não entendo como que uma pessoa que esteja acompanhando o programa possa ficar chateada. Todo mundo que trabalha já viveu alguma daquelas situações", disse o autor Alexandre Machado, quando questionado sobre a série. O mundo real é muito mais triste. Se nos Aspones os funcionários se recusavam a aceitar propinas dos seus esculhambados, os noticiários não cansam de mostrar escândalos e corrupções até nos mais altos escalões do governo. Aos que ainda se sentem atingidos pelo humor da série, aqui vai um conselho do cantor Oswaldo Montenegro, ele próprio um dos alvos preferidos do programa: "O humor está aí pra iluminar o lado patético das coisas. Estamos todos aí para sermos gozados e aprendermos a rir de nós."
Maria Angélica de Moraes é editora de Variedades e escreve às quintas-feiras neste espaço.
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