29.01.2011 | 03h00
Porque é uma característica dele a habilidade de se camuflar entre nós, aprendendo não com o coração, mas com a razão a encenar reações humanas e a passar despercebido quando a convivência se dá de maneira superficial. Porque, muitas vezes, seu charme e sedução são a arma mortífera que faz baixar nossas resistências e manipulam nossos pontos fracos, vendando nossos olhos e obstruindo nossa capacidade de avaliação. Porque a nossa sociedade individualista, focada nos indivíduos e vivendo sob o lema "cada um por si", exalta a competição e a elasticidade da moral, corroborando com a máxima "os fins justificam os meios". E esse modo de funcionar vem ao encontro de tudo o que um psicopata é: autocentrado, amoral e incapacitado para estabelecer vínculos significativos com outras pessoas. Desta forma, podemos dizer que a sociedade estimula e autoriza, indiretamente, a psicopatia latente nesses indivíduos sem consciência. Somos seres contraditórios. O bem e o mal residem em nós. Sob o jugo das emoções, somos capazes de cometer atos de violência contra nós mesmos e nossos semelhantes. Mas a nossa consciência está sempre presente: ela faz a ponte entre os nossos instintos e a nossa razão, a moral internalizada, os valores humanos e sociais que fazem parte de quem somos. "Perder a cabeça" é uma possibilidade para qualquer um de nós. Mas, geralmente, o ato é seguido por culpa, vergonha e um amplo espectro de sentimentos que confirmam a existência da nossa consciência e humanidade.
Psicopatas não possuem consciência. Não "perdem a cabeça", pois não são capazes de vivenciar emoções genuínas apenas instintos desgovernados. Não amam, não submetem-se a relacionamentos mas a jogos de poder. Tem noção do que é socialmente certo e errado, apenas não se interessam por isso pois se acham acima das regras (e pessoas) que se coloquem como obstáculos para a realização de seus impulsos.
A origem da psicopatia tem muitas hipóteses não confirmadas: ainda estamos no escuro. O mesmo acontece em relação ao tratamento: ele não existe. Pois o psicopata, ao contrário do que ocorre em outras psicopatologias, não entra em sofrimento. E o fato de não ter consciência, torna o campo árido e infértil para qualquer tentativa de estabelecer vínculos e semear visando a cura.
Todos esses aspectos são abordados no livro da Dr.ª Martha Stout. Através de explicações mais teóricas, permeadas de casos clínicos e estórias práticas, a autora define o conceito de consciência, apresenta o perfil do psicopata, nos fornece indícios de como reconhecê-los e lidar com eles e de que modo a sociedade e a psicopatia se inter-relacionam.
As origens da consciência também são problematizadas e confrontam-se os dois opostos nos quais ela pode se constituir: a ausência completa de consciência (indicando a sociopatia) X o "excesso" de consciência e suas conseqüências. Porém o que mais assusta a sociedade e a cada um de nós é a quase falta de humanidade presente numa personalidade sociopata e o sentimento de suscetibilidade que eles nos causam, em diferentes graus.
Para quem é curioso sobre o tema, para estudantes, familiares que convivam com um psicopata e para qualquer um que deseje se proteger daquele que pode ser nosso vizinho e se enquadrar no perfil de psicopata - mesmo que nunca tenha retalhado o corpo de ninguém nas redondezas e se comporte como "a melhor pessoa do mundo".
Segundo a atual bíblia de rótulos, o Manual diagnóstico e estatístico de distúrbios mentais DSM-IV-TR, da Associação Americana de Psiquiatria, o diagnóstico clínico do "Transtorno da Personalidade Antissocial" deve ser cogitado quando um indivíduo apresentar, no mínimo, três das sete características a seguir: (1) incapacidade de adequação às normas sociais; (2) falta de sinceridade e tendência à manipulação; (3) impulsividade, incapacidade de planejamento prévio; (4) irritabilidade, agressividade; (5) permanente negligência com a própria segurança e a dos outros; (6) irresponsabilidade persistente; (7) ausência de remorso após magoar, maltratar ou roubar outra pessoa. A combinação de três desses "sintomas" é suficiente para levar muitos psiquiatras a considerarem o distúrbio.
Graciele Girardello é escreve aos sábados para A Gazeta. E-mail: g.girardello@terra.com.br
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