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13.02.2005 | 03h00

Dops fichava pelo menos 150 por mês, lembra o ex-diretor

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O delegado aposentado Joaquim Ramalho dos Santos, ex-diretor do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) revela que durante o regime militar, principalmente entre 75 e 79, quando esteve no comando do órgão, pelo menos 150 pessoas eram fichadas mensalmente em Mato Grosso.

Contrariando depoimento de muitos perseguidos e presos políticos, ele garante que o Dops se limitava a atender Pedido de Buscas (PB) oriundo de outros Estados e que não atentava contra os direitos humanos, principalmente em relação a torturas, execuções e cassações políticas. Ramalho cita que, com 90 dias à frente do órgão, transformou o Dops em Departamento, com abrangência em todo o Estado, num período em que Mato Grosso ainda não tinha passado pelo processo de divisão territorial para surgimento de Mato Grosso do Sul.

De um lado teve equipe e estrutura ampliadas mas, de outro, as dificuldades da Polícia Civil levaram o Dops a dedicar 10% da atuação à ordem política e 90% no combate à criminalidade. "Nesses 10%, a gente prestava informações sobre o chamado PB. Eram pedidos vindos de Brasília, São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco. Fazíamos relatórios, que iam para a origem do pedido".

Ramalho relata que o serviço confidencial consistia em levantar a origem da pessoa, nome, os hábitos e costumes e se havia algo contra no campo político. "Na época da revolução, era o Exército que tinha o poder de mandar no SNI (Sistema Nacional de Informações). E aí queria saber sobre a vida dos chamados subversivos. Tinha mês que prestávamos, em média, de 150 a 200 informações por mês". Devido aos vários pedidos de busca, o então governador Garcia Neto (75/78) autorizou a criação de uma Divisão de Serviços Confidenciais dentro do Dops, quando passou a atuar mais próximo com a Polícia Federal.

O delegado aposentado, hoje com 59 anos e atuando em assessoria jurídica restrita a amigos e membros da família, revela que muitos políticos foram fichados. Prefere, porém, não citar nomes. "Eram pessoas tidas como de esquerda. Na época em que fui diretor, o aspecto esquerda não causou transtorno para o Estado", cita, lembrando que não existia atuação intensa e radical dos movimentos sociais, como os sem-terra hoje.

Sobre os fichamentos feitos na região de Cáceres, inclusive de líderes nacionais de esquerda como Luiz Carlos Prestes, José Genoino e Leonel Brizola, conforme A Gazeta revelou desde domingo na série "os anos de chumbo", o ex-diretor do Dops afirma que havia um foco maior por ser região de fronteira com a Bolívia. Observa que havia problema de ordem política e também preocupação com o tráfico de drogas. Explica que um relatório da época, revelando que a região era um corredor do tráfico, levou o governo a instalar uma Delegacia da Polícia Federal na Grande Cáceres.

Ramalho preferiu desconversar sobre as 2,5 mil fichas policiais, hoje nos arquivos do Nudheo de Cáceres, da Universidade do Estado (Unemat). "Esses documentos não chegaram a passar pelo Dops", despistou. Em vários documentos, no entanto, aparecem Dops - ver exemplo na reprodução acima no fichamento de José Barbosa da Silva, feito em 1980, em que o Dops pede o máximo de colaboração para localizá-lo e prendê-lo.

"O regime militar tinha grande preocupação com o país. A orientação era para garantir a segurança nacional e não para espancar e torturar ninguém. O Dops nunca chegou a fazer detenção sobre problemas políticos. Efetuava-se, sim, investigação daquelas pessoas solicitadas", garante Ramalho, formado em Direito pela UFMT. Ele foi da Academia da Polícia Militar do Rio e de São Paulo e tem 40 cursos de especialização em segurança pública. Atuou como soldado, sargento, oficial e delegado. Está aposentado desde outubro de 88. Por um ano e sete meses fez parte do governo Blairo Maggi como assessor de gabinete na secretaria de Administração, no setor de cartas e certidão de crédito. Deixou o cargo por questões salariais.

Saudade - Joaquim Ramalho conta que o Dops funcionou no prédio que hoje abriga o Palácio da Instrução e, depois, no Palácio Alencastro, hoje sede da prefeitura de Cuiabá. Perguntado se o porão do Alencastro fora transformado em local para seção de tortura dos chamados adversários do regime militar, o ex-diretor reage: "Não houve isso. O Dops não fazia interrogatórios sobre política".

O ex-diretor lamenta a extinção do Dops, ocorrida em 84, um ano antes da redemocratização do país. "O Dops era um órgão respeitado em todo o cenário nacional e, de toda a estrutura da segurança pública do país, era o mais importante, na minha opinião de policial".

Em relação à polêmica sobre abertura dos arquivos do período da ditadura (64-85), Ramalho diz ser favorável. "O Brasil é democrático e tudo que se faz a opinião pública tem que saber. Sou favorável à abertura dos arquivos".

A Gazeta encerra hoje a série "os anos de chumbo", iniciada no último domingo, com revelação de fichas policiais de perseguidos políticos e depoimentos surpreendentes.

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