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Após delação premiada, empresário Júnior Mendonça multiplica patrimônio

Chico Ferreira

Chico Ferreira

Ter feito uma delação premiada foi a melhor coisa que poderia ter ocorrido ao empresário Gércio Marcelino Mendonça Júnior, conhecido entre os políticos como ‘Júnior Mendonça’. Pelo menos é isso que dão a entender os números da principal empresa do delator, a Comercial Amazônia Petróleo, que cresceu desde que o acordo de delação foi firmado.


Levantamento feito pelo jornal A Gazeta mostra que a principal empresa de Júnior Mendonça, a rede de combustíveis Comercial Amazônia de Petróleo Eireli, aumentou de 11 para 24 unidades em apenas 7 anos. Os números estão registrados nas atas de alterações e nos balanços financeiros da empresa. Além disso, Júnior Mendonça foi um dos primeiros homens de Mato Grosso a fazer delação premiada, em 2014. Inúmeros inquéritos foram abertos a partir dela e as investigações, engendradas na Operação Ararath da Polícia Federal, atingiram políticos como os ex-governadores Silval Barbosa (ex-MDB) e Blairo Maggi (PP). As denúncias apontaram que as empresas de Júnior atuavam como ‘bancos clandestinos’ para emprestar dinheiro e financiar campanhas aos políticos. Em troca, o empresário recebia pagamento com dinheiro público desviado.

 

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Em 2012, logo depois das primeiras operações da Polícia Federal que investigou supostas ilegalidades cometidas pelo empresário, a Amazônia Petróleo possuía 11 postos de combustíveis distribuídos pela região central e por bairros de classe média em Cuiabá.

 

Em 2019, 5 anos após a assinatura do acordo de colaboração premiada com o MPF, a Amazônia Petróleo contemplava uma rede de 24 postos de gasolina, localizados em diversos bairros de Cuiabá e Várzea Grande. Mendonça expandiu a atuação de sua empresa principalmente para a cidade de Várzea Grande, onde instalou 9 novos postos.

Com um capital social de R$ 1 milhão, a empresa do delator vinha em uma crescente de lucratividade desde 2007, quando foi instalada, o que poderia explicar a ampliação da rede de postos durante os últimos anos. Dados de balanços patrimoniais registrados na Junta Comercial mostram que a lucratividade também aumentou em um pequeno período de tempo.

 

A empresa registrou lucros de R$ 150 mil em 2008, um ano após começar a funcionar. Em 2011 os lucros chegaram a R$ 808,840 mil alcançando um aumento percentual de aumento de 477% em relação ao último ano citado. No ano seguinte, em 2012, os lucros foram reduzidos, afetados pelas primeiras fases da Operação Ararath, e chegaram a R$ 528.153.

Depois de 2012, quando os primeiros mandados de busca e apreensão foram cumpridos, a Amazônia Petróleo deixou de registrar seus balanços financeiros, por isso não é possível informar quanto a empresa lucra atualmente. A Junta Comercial somente recebeu alterações no contrato social da empresa, que tem Júnior Mendonça como único sócio.

 

Já em 2012 as investigações da Polícia Federal apontavam que tanto a Comercial Amazônia Petróleo quanto a Globo Fomento Mercantil Ltda., que também pertence a Mendonça, lavavam dinheiro e faziam movimentações financeiras ilegais.

 

Compra de vaga

 

As companhias auxiliaram, por exemplo, na suposta compra de vaga do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT), Alencar Soares, pelo deputado Sérgio Ricardo em 2009. Júnior Mendonça teria repassado, segundo as investigações, R$ 4 milhões para que Sérgio Ricardo comprasse a vaga. Os depósitos foram pulverizados nas contas de familiares do conselheiro.

Estima-se que a organização criminosa a que Júnior Mendonça fez parte chegou a desviar R$ 500 milhões durante os governos de Blairo Maggi (PR) e Silval Barbosa (ex-MDB). Informações publicadas na imprensa em 2014 davam conta de que o empresário teria que devolver R$ 8 milhões aos cofres públicos.

 

Outro lado

 

Questionada pela reportagem a assessoria de imprensa do MPF e a defesa de Mendonça, feita pelo advogado Huendel Rolim, não confirmaram os valores. O Ministério Público afirma que o acordo é sigiloso e que não pode oferecer informações sobre o caso. Rolim diz o mesmo, mas adiantou que todo o valor acordo já foi cumprido pelo delator.

 

Na bronca

Enquanto os envolvidos preferem sigilo, o povo nas ruas não esconde a indignação com a prosperidade do empresário-delator. Na avaliação do servidor público Gilcelio Alves de Lima, 47, todos os bens de Mendonça deveriam ter sido sequestrados.

Chico Ferreira

Gilcélio Alves de Lima

Servidor público Gilcélio Alves de Lima: bens deveriam ser sequestrados

‘Tinha que ser recuperado e revertido tudo em serviços públicos’, afirma, ‘Ele enriquecia com dinheiro público, não é justo que continue rico enquanto o povo sofre’, conclui.

Sofrimento, aliás, é uma palavra que Vânia Coelho Carreiro conhece muito bem. Aos 47 anos desempregada, ela faz tratamento de asma no Hospital Júlio Muller há 17 anos. Desde sempre, segundo ela, é comum não ter médico na unidade. Voltar pra casa sem atendimento é o que faz com que ela pense nos efeitos da corrupção.

 

‘Acabei de voltar do hospital, por sorte hoje tinha médico’, diz. ‘Eu vivi os governos Blairo e Silval, por tudo que foi feito ele [Júnior Mendonça] merecia ser preso, é muito injusto com o povo que rala e que trabalha o dia inteiro para ter um pouquinho’, lamenta. 

Chico Ferreira

Vânia Coelho Carreiro

Vâenia Coelho Carreiro: merecia ser preso

 

O pontapé inicial da ex-esposa

Deflagrada no dia 12 de novembro de 2013 a Operação Ararath possui 16 fases. Um dos pontapés da investigação que envolveu políticos de vários níveis do Estado foi o testemunho prestado por Kharina Nogueira, ex-esposa de Júnior Mendonça. Ela deu detalhes aos investigadores sobre os negócios ilícitos do ex-marido.


O nome da operação da PF, Ararath, é de uma montanha onde teria ficado a Arca de Noé, no dilúvio narrado na Bíblia. O nome é uma referência a outra operação, a Arca de Noé, deflagrada pela Polícia Federal em 2002, que desarticulou o crime organizado em Mato Grosso comandado pelo contraventor e bicheiro João Arcanjo Ribeiro.

 

A ‘credibilidade’ de Júnior

 

Nascido no dia 6 do 11 de 1966, Gercio Marcelino Mendonça Júnior, o ‘Júnior Mendonça’, tornou-se um dos mais influentes empresários de Mato Grosso. As investigações apontam que Mendonça era conhecido como homem de confiança de vários políticos. Aos 53 anos, mesmo depois da delação, o empresário manteve o crescimento de sua empresa e conseguiu montar uma das maiores rede de postos de gasolina do Estado. Fundada em 2007, a Amazônia Petróleo tem 24 postos espalhados por Cuiabá e Várzea Grande. A relação da empresa com o poder público segue firme a ponto de, em 2017, a companhia doar R$ 15 mil em pisos e cerâmicas para a reforma da Praça Alencastro, em Cuiabá.

 


Fonte: Gazeta Digital

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