Mato Grosso é vice-campeão no ranking de trabalho escravo, mas só conta com 35 auditores da Delegacia Regional do Trabalho (DRT/MT) para realizar todas as medidas de prevenção e fiscalização. São necessários pelo menos 100 para atender a demanda diária, fora as denúncias.
Um estudo realizado pela Organização do Trabalho (OIT) mostra uma defasagem de 50% no número de auditores no Brasil. Atualmente, são 2,9 mil, quando deveriam ser mais de 6 mil. "Para evitar este tipo de problema é necessário existir um fiscal para cada 20 mil habitantes, o que está longe da realidade do país, não só do Estado", afirma o presidente da Associação Mato-grossense dos Auditores Fiscais do Trabalho (Amafit), Valdiney Arruda.
Além de poucos, eles não contam com um eficiente aparato de trabalho. Há ainda problema de logística e segurança, especialmente quando estão em áreas rurais isoladas, onde figuram as cenas de trabalho escravo.
Para Arruda, os auditores estão utilizando métodos e utensílios de 10 anos atrás. Faltam veículos equipados com comunicadores via satélite, coletes a prova de bala, rádio comunicador e uma central de resgate, que conte com helicópteros, por exemplo. "Deveríamos trabalhar em conjunto com a Polícia Federal, além de ter uma melhor interlocução com o governo estadual".
O assessor da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Ailson Machado, disse, por telefone, que o tiroteio na fazenda Sankara agrava a preocupação com o Estado, que está no mesmo patamar de Pernambuco e Pará. "Verifiquei pessoalmente quando estive em Nova Guarita, no ano passado, que a polícia militar tem agido de forma parcial, o que é preocupante".
A Pastoral da Terra informou que no ano passado foram atendidas 15 denúncias de trabalho escravo em Mato Grosso, cerca de 1,5 mil trabalhadores rurais foram libertados, a maioria deles contratados por usinas de cana-de-açúcar. Entre eles homens, mulheres e adolescentes a partir de 12 anos. Pelo menos 2,5 mil pessoas denunciaram.
Versões distintas- Há duas explicações divergentes sobre o confronto ocorrido na fazenda Sankara. Tudo teria começado quando os proprietários procuraram o quartel da PM local para comunicar um suposto assalto com reféns na propriedade. A versão da PM é de que quatro policiais militares fardados seguiram em uma viatura logo atrás da caminhonete Hilux, do fazendeiro, onde estava outro policial, à paisana.
Ao descer para abrir a porteira da fazenda, o policial sem farda teria ouvido um tiro. Como a poeira estava alta, a visibilidade era reduzida. Ele, então, sacou a arma e disparou três vezes na direção oposta.
Quando percebeu que se tratavam de policiais federais, o militar interrompeu os disparos e a situação foi contornada. Mas, de acordo com a PF e os fiscais do Trabalho, o ataque foi franco e contou com a participação dos fazendeiros. (RD)