Uma mulher estirada no chão sobre uma poça de sangue e o filho, ao lado, paralisado. Ele é um dos suspeitos. Assim começa o livro Desumano (Editora Brasiliense, 152 páginas, R$ 24,90), de Olivia Maia, de 21 anos. Com um quê mórbido, este "conto comprido que virou livro" marca a estréia dela na literatura.
Desumano consumiu cerca de um ano de Olivia até ser finalizado. Ela explica que estava escrevendo outro livro e, nas horas vagas, se dedicava a iminente publicação. Mas como uma estreante conseguiu um contrato com uma grande editora? "Foi sorte: eles queriam, eu tinha. Eles gostaram e deu no que deu", diz a estudante de Letras da Universidade de São Paulo (USP).
A Editora Brasiliense já estava pensando em uma série de publicações policiais feitas por escritores brasileiros. O livro de Olivia seria o primeiro, apesar de ela não saber se a idéia inicial da editora vai vingar.
A jovem escreveu outros trabalhos antes, um aos 17 anos e outro aos 19. Desumano é o terceiro romance dela. Olivia acha que a maior dificuldade enfrentada pelos novos autores é a ansiedade. A quem tem trabalhos e ainda não sabe como publicá-los, ela aconselha ir atrás, batalhar - mas, no fim, admite: ter um contato e sorte sempre é bom e ajuda nessas horas.
Entretenimento - Sabe-se que se lê pouco no brasil. Segundo o Instituto Paulo Montenegro (IPM), braço social do Grupo Ibope, só 26% da população brasileira na faixa de 15 a 64 anos de idade são plenamente alfabetizados. Sendo assim, vale a pena insistir em literatura?
"O problema é a idéia mirabolante que as pessoas fazem da leitura", opina Olivia. Para a autora falta no país uma literatura "mais novela", mais próxima daquilo que as pessoas vêem na TV: entretenimento. A partir desse tipo de literatura, acredita Olivia, é que as pessoas chegarão a um Kafka, James Joyce ou Henry Miller. "Falta entretenimento, do tipo: a pessoa lê um livro numa semana e fala: "Quem bom, vou ler outro"", completa.
Olivia acha que é uma questão de costume. As pessoas devem passar por estágios, alimentando aos poucos o gosto pela leitura. Para isso elas têm de passar por "degraus", como um Paulo Coelho.
Desumano - O livro na verdade é um conto que se estendeu e acabou virando livro. Olivia já escrevia textos com tons policiais e suas tramas habituais, mas um tanto um quanto complicadas - o que acabava emperrando o trabalho. "Ele (Desumano) é mais simples na idéia, mas acabou ficando mais consistente", diz Olivia.
O protagonista e narrador é Márcio, um garoto de 20 anos. Ele estuda em uma universidade pública de São Paulo e é órfão de pai e agora de mãe - a mulher estirada na poça de sangue com o pescoço cortado e o maxilar estraçalhado que abre o livro. Por não se lembrar de nada, Márcio é um dos suspeitos do crime.
O cenário de sua fuga é a cidade de São Paulo. Na correria, Márcio conhece Luisa, sua companheira de investigação e de solidão. Os dois voltam até a cena do crime em busca de pistas que denunciem o verdadeiro assassino.
Sobre a autora - Olivia começou a escrever cedo. O gosto pela literatura policial nasceu das horas gastas na leitura de casos de crianças psicopatas em um site, nas conversas e textos trocados com o escritor e ex-delegado Joaquim Nogueira e no próprio casamento: Olivia é casada com um investigador de polícia. Quem lê Desumano nem imagina que ela, aos sete anos, montava livros obre coelhos e gatos.
Na adolescência, porém, por pouco ela não parou de escrever e de ler. Tudo por causa das suas crises, amores não-correspondidos e provas de química e física. Foi só no último ano do colégio que o gosto voltou, graças a um professor. "A partir daí comecei a ler os escritores de verdade", diz ela se referindo a Cortázar, Guimarães Rosa, Dennis Lehane, James Joyce e outros.
A jovem já dois livros prontos, um policial e outro que ela classifica como "cult": um historiador de 35 anos com crises existenciais. Ela está escrevendo outro nesta linha. "Não sei o que fazer com os não-policiais. Eles estão numa crise existencial", brinca Olivia, que pretende lançá-los, mas não faz a menor idéia de quando.