Como faço todos os dias levanto cedo e mesmo sem olhar no relógio já tenho programadas as minhas próximas 24 horas. Posso estar triste ou feliz, não há tempo para pensar nesses detalhes. Posso estar sem dinheiro, estar com um probleminha de saúde, reclamar de uma dor, mas nada que impeça de pular da cama e ir adiante. Posso sentir um tédio ao chegar no trabalho ou agradecer aos céus por ter um trabalho. Posso lamentar aquelas decepções diárias que todos experimentam, mas fico empolgada em poder recomeçar mais um dia. Nessa rotina que, embora com pequenas diferenças, é comum à maioria das pessoas, existem componentes que nos fazem melhores ou piores. Sentimentos que a gente carrega ao longo dos anos e que se transformam em lições de vida.
De tudo que tenho passado, definitivamente não posso me queixar dos filhos que Deus me deu e que certamente logo não serão tão meus assim. Igualmente não posso reclamar dos meus pais, apesar de muitas vezes tê-los criticado. Afinal sou grata por ter nascido. Irmãos, irmãs, cunhados, cunhadas, sobrinhos e vai uma penca de parentes, especiais cada um a seu modo, ainda bem. Embora nem sempre esteja presente na vida deles, eu sei que estão ali e em um simples gesto prontos para me apoiar, mesmo que julguem erradas algumas atitudes que tomei sem consultar ninguém em meio àqueles rompantes de verdades próprios da juventude.
Da mesma forma como os anos vão nos moldando a cada situação, a cada dificuldade, a cada alegria, têm fatos e pessoas que não podemos deixar de lado nunca. Posso lamentar as decepções que me causaram, como também me sentir acolhida pela simples constatação de saber que eles existem. Estou me referindo aos meus amigos. Os que um dia foram inseparáveis e hoje estão distantes, como os dos dia-a-dia sem os quais tudo seria muito mais difícil de suportar. Durante nossa vida, amigos vêm e ficam. Enquanto outros vêm e se diluem, mas nem por isso deixam de ter importância. Outros passam, porém impõem marcas profundas. São aqueles que vão embora sem a menor vontade de ir. E se um dia ficarmos sem nos falar, se houver mesmo a amizade, faremos as pazes e nada do tal "belém, belém, nunca mais fico de bem"!
Gostaria aqui de render meu tributo a esses amigos de todos os tipos que surgiram em minha vida e me empurraram pra frente. Talvez eles nem tenham consciência da importância que tiveram em momentos difíceis e naqueles de pura alegria. Os meus amigos estão guardados no coração. Quem sabe ainda possa ter tempo de agradecer a cada um o valor de sua amizade. Cada um inesquecível em seus conselhos, no jeitinho especial de ouvir, ou simplesmente no silêncio de um abraço carinhoso ou na troca de um olhar. Tenho convicção de que a amizade é o sentimento que falta ao mundo, que poderia transformar muitas situações. Da minha parte, que me perdoem os amigos que esqueci, deixei de lado ou que magoei... Sei que de uma forma ou de outra, nasceremos de novo, um para o outro, quando menos esperarmos.
Margareth Botelho é jornalista em Cuiabá e diretora de Redação de A Gazeta. E-mail: margareth@gazetadigital.com.br