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17.08.2003 | 03h00

Lutando por um lugar ao sol

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Encarar o aparecimento das primeiras rugas na face diante do espelho não é uma tarefa muito fácil, não é mesmo? Agora, imagina para quem vive basicamente da própria imagem, como é o caso dos artistas de televisão. Com medo de discriminação e de não receber mais convites para atuar na TV, muita gente prefere abandonar a certidão de nascimento no fundo de uma gaveta. É o caso de atores como Neusa Borges, que no final de 2001 chegou a aparecer em alguns programas de televisão para pedir emprego e dizer que estava passando necessidades por não receber mais convites para voltar às novelas.

"Já tenho 60 anos, sou mulher e negra. É difícil arrumar um papel que não seja o de empregada ou escrava, mas como não é sempre que temos novelas de época, fico sempre de fora", chegou a declarar na época, pouco antes de ser escalada para interpretar a governanta Dalva, de O Clone. Neste ano, a atriz enfrentou uma onda de azar e acabou perdendo o papel que já estava confirmado em Agora é que são elas, por conta de um acidente num carro alegórico da escola onde desfilou, no último carnaval. Com o fêmur fraturado, Neusa teve de ceder seu papel à amiga Joana Fomm e aguardar uma nova oportunidade no futuro.

Assim como Neusa, que começou a trabalhar ainda jovem na TV muitos dos pioneiros da telinha questionam a falta de convites para atuar nas novelas. "Não existem personagens adeqüados às nossas idades", reclama a atriz Lisa Negri, relações públicas da Pró-TV, entidade que congrega muitos desses pioneiros. "Nas novelas mexicanas, como as que são exibidas pelo SBT, em quase todos os núcleos existem a avó, o avô, a tia mais velha... mas nas novelas brasileiras só existem personagens jovens. Mesmo no teatro, por exemplo, o ator deve ter o mínimo de senso de ridículo e, se tiver uns 70 anos, não faz sentido interpretar um personagem de 20, 30 anos", ressalta Lisa, que está longe da TV desde que gravou algumas participações no extinto humorístico Ô Coitado, do SBT.

Lisa começou sua carreira em 1962, na extinta TV Tupi, encaminhada por Cassiano Gabus Mendes. "Eu era manequim e desfilei para grandes costureiros, como o Dener. Até que o Cassiano me viu e me convidou para fazer um teste para TV". Gravou seis filmes, dentre os quais Noite Vazia, com Walter Hugo Khouri, mas foi no teatro que ela construiu grande parte de sua carreira. "Cheguei a ter um teatro com o meu nome na Praça Major Diogo e excursionei pelo Brasil inteiro com minhas peças. Aí me cansei de tudo e me mudei para os Estados Unidos", diz a atriz, que morou na terra de Bush durante dez anos seguidos, onde trabalhou como guia de turismo. "Seria muita pretensão minha mudar para lá para trabalhar como atriz, nunca cogitei isso", admite.

Ao retornar para o Brasil, em 1996, Lisa passou a bater de porta em porta para reativar a carreira de atriz. "Deixei meu curriculum no SBT e cheguei a gravar a novela As Pupilas do Senhor Reitor, fazendo um papel pequeno. Mas depois os convites cessaram e, infelizmente, nunca mais fui chamada para nenhuma novela. Isso magoa muito a gente", lamenta a atriz, que no passado protagonizou várias novelas como O Segredo de Laura (TV Tupi), escrita por Vida Alves, presidente da Pró-TV e sua amiga de tantos anos.

Outro que se queixa da falta de oportunidades na TV é o humorista Marcos Plonka, que se consagrou com o personagem judeu Samuel Blaustein, da Escolinha do Professor Raimundo, sucesso regido sob a batuta de Chico Anysio durante a década de 90, na Rede Globo.

O sucesso do personagem foi tão grande que Plonka montou um show e o batizou de "Fazemos qualquer negócio", além de também montar o piloto do humorístico Supermercado do Riso, idéia que tenta vender para alguma emissora interessada e, assim, retornar ao vídeo. "Hoje em dia, a tecnologia cria talentos e tampa as imperfeições através de recursos de computador que são até assustadores. Desse jeito, até eu ficaria bonito pelado em uma revista (risos)... Mas na minha época era tudo na raça."

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