27.11.2005 | 03h00
Janete Clair deve ter ficado um tanto perplexa no dia 27 de agosto de 1975, quando Cid Moreira anunciou no Jornal Nacional o veto do governo militar à novela Roque Santeiro, escrita por seu marido, Dias Gomes. A Censura Federal alegou que a saga do santo milagreiro não passava de uma ofensa à moral e aos bons costumes. Pega de surpresa, a Globo não teve outra saída senão reprisar uma versão compacta de Selva de Pedra, da própria Janete. Em meio à comoção geral, a autora se ofereceu para fazer o impossível: confiou a novela Bravo!, que estava escrevendo para o horário das sete, a Gilberto Braga e desenvolveu, em tempo recorde, a sinopse de uma nova produção para o horário das oito. Assim, apenas 89 dias depois, na noite de 24 de novembro de 1975, a Globo estreou Pecado Capital. "Antes de sair da minha sala, Janete ainda perguntou: "Daniel, quer me dar o elenco de Roque? Vou dar papel para todo mundo..." Janete simplesmente não existia!", recorda, emocionado, o diretor Daniel Filho.
E assim foi. Os atores Francisco Cuoco, Betty Faria e Lima Duarte, escalados para interpretarem Roque Santeiro, Viúva Porcina e Sinhozinho Malta, foram remanejados para os papéis de Carlão, Lucinha e Salviano Lisboa. A princípio, nem todos aprovaram o troca-troca. Betty Faria, por exemplo, não se identificou com a nova personagem. Tanto que sugeriu a Daniel Filho, com quem era casada na ocasião, que oferecesse o papel para Regina Duarte. "Não sei onde estava com a cabeça quando fiz isso. Devia estar traumatizada com a proibição de Roque", reconsidera.
Curiosamente, dez anos depois, quando a Globo, finalmente, conseguiu regravar e exibir Roque Santeiro, Betty Faria recusou o convite para interpretar Porcina. Sorte de Regina Duarte, que acabou imortalizando aquela que foi sem nunca ter sido... "Acabei entregando a Porcina de bandeja para a Regina. Foi uma grande bobagem da minha parte. Me arrependi muito depois", confessa Betty.
Batizada inicialmente de O Medo, Pecado Capital girava em torno de Carlão, um motorista de táxi interpretado por Francisco Cuoco, que caiu em desgraça ao ficar com uma maleta cheia de dinheiro, esquecida em seu carro após um assalto a banco. Decidido a subverter o estereótipo do galã, Daniel sugeriu que Cuoco deixasse crescer bigode e costeletas e engordasse uns quilinhos a mais. "Não há um táxi sequer em que eu embarque e que o motorista não mencione o Carlão. Ele era um típico brasileiro. Desses que leva uma vida dura, mas sempre espera dar a volta por cima", sintetiza Cuoco. De acordo com a sinopse original, Carlão devolveria o dinheiro e terminaria com Lucinha. Daniel, porém, convenceu Janete a não só casar Lucinha com Salviano, mas também a matar Carlão. A princípio, a autora rejeitou a idéia, alegando que, se matasse o mocinho, o público ficaria decepcionado com o final. "Mas era exatamente por isso que eu queria a morte do Carlão. Queria mostrar ao público que novela não é um jogo de cartas marcadas", argumenta Daniel.
A morte de Carlão no último capítulo de Pecado Capital, assassinado a tiros num canteiro de obras do Metrô no Centro do Rio, pode ter desagradado a alguns, mas tornou-se um marco na teledramaturgia nacional. Não por acaso, a Globo resolveu fazer um remake em 1998, sob responsabilidade da autora Glória Perez. Nele, Eduardo Moscovis e Carolina Ferraz interpretaram os papéis de Carlão e Lucinha. Já Salviano Lisboa foi vivido por Francisco Cuoco. Do elenco original, Betty Faria e Lima Duarte também fizeram participações especiais: ela como uma trocadora de ônibus que contracena com Lucinha e ele como o assaltante que matou Carlão. Na nova versão, porém, Glória Perez preferiu não casar Salviano com Lucinha.
Afinal, Francisco Cuoco e Carolina Ferraz não morriam de amores um pelo outro. "Fazer uma segunda versão de um trabalho tão bem-sucedido quanto Pecado Capital é sempre delicado. Além disso, o horário das seis não ajudava muito. Enfim, acertar toda a fórmula anterior não é lá muito fácil", pondera Cuoco.
Publicidade
Publicidade
Milho Disponível
R$ 66,90
0,75%
Algodão
R$ 164,95
1,41%
Boi à vista
R$ 285,25
0,14%
Soja Disponível
R$ 153,20
1,06%
Publicidade
Publicidade
O Grupo Gazeta reúne veículos de comunicação em Mato Grosso. Foi fundado em 1990 com o lançamento de A Gazeta, jornal de maior circulação e influência no Estado. Integram o Grupo as emissoras Gazeta FM, FM Alta Floresta, FM Barra do Garças, FM Poxoréu, Cultura FM, Vila Real FM, TV Vila Real 10.1, TV Pantanal 22.1, o Instituto de Pesquisa Gazeta Dados e o Portal Gazeta Digital.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem a devida citação da fonte.