08.06.2003 | 03h00
Em 2001, descontente com o descaso nacional com o centenário do primeiro grande feito do aeronauta Alberto Santos-Dumont (em 1901, ele se tornou o primeiro homem a controlar um dirigível, ao decolar de um ponto em Paris, contornar a Torre Eiffel e voltar em menos de 30 minutos), o físico Henrique Lins de Barros intensificou suas pesquisas sobre o inventor, preparando-se para outra grande data: em 2006, comemoram-se os cem anos do primeiro vôo controlado de um aeroplano, o 14 Bis, que se tem registro na história. "Santos-Dumont é conhecido como o pai da aviação, mas ainda surgem dúvidas quanto ao valor de seus inventos", comenta Barros. "Assim, pretendi provar que, até 1932, quando morreu, Santos-Dumont foi um marco fundamental no desenvolvimento da aeronáutica."
Barros pesquisou toda a documentação existente no Brasil e na França sobre o inventor, além de entrevistar seus descendentes, que lhe permitiram acesso às relíquias de família. O resultado de tamanho empenho é o livro Santos-Dumont e a Invenção do Vôo (Jorge Zahar Editor). Na obra, Barros detalha a trajetória do inventor a partir de comentários dele próprio e das pessoas com quem conviveu, buscando um retrato ainda desconhecido de Santos Dumont, com suas angústias e contradições.
Henrique Lins de Barros, físico especializado em biomagnetismo, interessa-se por aviões desde garoto. Adulto, iniciou pesquisas sobre Santos-Dumont até que, em 1985, foi consultor da diretora Tizuka Yamazaki, que planejava rodar um filme sobre o inventor. A obra não saiu do papel, mas permitiu a Barros fazer pesquisas na França, que incrementaram seu material.
Com a proximidade do centenário do vôo de Santos-Dumont no balão nº 6, em 2001, Barros pretendia reeditar a publicação A Conquista do Ar pelo Aeronauta Brasileiro Santos-Dumont, lançada em Paris, em 1901. Apesar de datada, a obra apresenta detalhes da forma de trabalho do inventor e de seus métodos. Aos poucos, suas primeiras experiências despertaram atenção em Paris. "Ele tinha uma incrível consciência de mercado e, enquanto os americanos só pensavam em esconder suas invenções, preocupados em patenteá-las, Santos-Dumont realizava todos os seus experimentos na presença do público e de especialistas, buscando aumentar a credibilidade na aeronáutica, que era então desconhecida", explica Barros.
Como as comemorações do centenário não aconteceram com o devido destaque, o físico decidiu preservar a reedição para uma obra mais completa, que contextualizaria o trabalho de Santos-Dumont. Por sua formação científica, Barros não acredita simplesmente na genialidade do inventor, mas em sua dedicação e curiosidade. "A produção dele se dá num espasmo, entre 1898 e 1909", explica. "Nesse período, Santos-Dumont cria ao menos dois grandes inventos por ano, desde o primeiro balão até o Demoiselle, um delicado modelo em que ele revela ter compreendido como deveria ser o avião."
Durante essa fase de efervescência, o inventor buscava soluções que facilitassem seu trabalho. Assim, ao comentar com o amigo Louis Cartier, em 1907 ou 1908, que sentia a necessidade de medir o tempo de vôo sem precisar tirar as mãos dos comandos, Santos-Dumont recebeu dele um protótipo de relógio preso ao pulso. Batizado de "modelo Santos", a novidade chegou ao mercado em 1911.
Depois de célebres experiências - no dia 23 de outubro de 1906, a bordo do 14 Bis, ele sobrevoou o Campo de Bagatelle, em Paris; foram só sete segundos de vôo, mas o suficiente para manter em suspense o público reunido para ver a realização do sonho de .caro -, Santos-Dumont, esgotado, anunciou o fim de sua carreira de aeronauta, em 1910.
A velhice, porém, foi-lhe um peso. A depressão aumentou até dar cabo da vida, em 23 de julho de 1932. Apesar de não interpretar essa morte, Barros levanta as diversas hipóteses que o conduziram a um ato tão radical. O uso crescente do avião em operações militares pode ter magoado o inventor, embora ele mesmo, desde 1901, comunicava suas descobertas ao exército. "Santos-Dumont era muito reservado em relação à sua intimidade e o que se sabe é fornecido pelos bilhetes e cartas que trocou com amigos e familiares", conta Barros.
O físico nota também o curioso uso do hífen no sobrenome. "Acredito que ele queria ser conhecido na França como Santos-Dumont e não apenas como mais um Dumont; para isso, usava tanto o hífen como o sinal de igual no sobrenome", conta Barros que, com o livro, pretende massificar desde já as informações sobre o inventor, preparando-se para as importantes comemorações do centenário do 14 Bis, em 2006. "Com sua curiosidade intelectual, Santos-Dumont guarda semelhanças com Leonardo da Vinci", completou.
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