16.06.2003 | 03h00
"Cada pessoa faz uma opção de vida, aceita quem quer". Com essa frase, Júlia, de 16 anos, costuma responder às instigações de curiosos sobre a preferência sexual de sua mãe. A garota, que passou por períodos difíceis na infância, hoje se diz ser bem resolvida e amadurecida em relação a homossexualidade materna.
Mas nem sempre as coisas foram fáceis. Quando estava com 25 anos Adriana, mãe de Júlia, viveu um crise conjugal ao descobrir uma traição do marido. Infeliz com a situação, enganada pelo homem que conheceu aos 14 anos e com quem perdeu a virgindade, ficou revoltada com os homens. "Não existem mais homens como antigamente", afirma ainda hoje. Desiludida, partiu para uma experiência nova e se envolveu com uma mulher por quem se apaixonou e com quem viveu durante oito anos.
Toda essa experiência, nova também para Adriana, provocou uma reviravolta no lar, na família e, claro, na cabeça das crianças. São três filhos, Júlia é a mais velha. O mais novo estava com dois anos quando tudo aconteceu. Para Adriana, não foi fácil, mais 11 anos depois as coisas tomaram outro rumo. Muito atenta a educação das crianças, Adriana nunca deixou nenhuma pergunta sem resposta e prefere o diálogo a "hipocrisia", como define a postura da maioria dos pais.
O papel de mãe não foi deixado de lado nem mesmo quando os pais de Adriana resolveram trazer os netos para morar com eles. Adriana, separada do marido, foi viver com a companheira bem próximo a casa dos pais, o que facilita até hoje estar perto dos filhos. Júlia acredita que viver com os avós torna a vida dela e dos irmãos mais organizada. Segundo ela, um dos irmãos tem vontade de morar com a mãe. Mas uma das determinações dos pais (Adriana e o ex-marido) sempre foi nunca separar as crianças.
Apesar das emoções estarem mais equilibradas hoje, Júlia conta que no início não foi fácil por causa da pressão social, o olhar recriminador das pessoas. Entre essas pessoas a própria avó, que no começo, tentando protegê-la da "má" influência que a mãe poderia exercer, proibia os netos de vê-la. "Eu ligava para minha mãe para vê-la quando estivesse na escola, durante o recreio", conta Júlia.
Hoje adolescente, Júlia é vista como uma pessoa amadurecida para a idade que tem. "Passei períodos de muita tristeza. Ficava preocupada com que meus amigos iriam dizer. Mas nunca deixei de brincar e ser uma criança como as outras", conta. Atualmente ela acredita que o problema maior está com o irmão mais novo. "Outro dia ele brigou na rua porque um menino falou que a mãe era "sapatão". Aí ele veio conversar comigo e perguntar o por quê. Nessas horas a gente conversa. Eu sou bem amiga deles", relatou.
Diferente do que a sociedade tradicional acredita, não são todos os filhos de homossexuais ou bissexuais assumidos que passam por um processo de revolta ao descobrir a opção sexual dos pais. Andréia, de 24 anos, soube aos 12 anos que o pai era homossexual. Depois de 18 anos casado ele se apaixonou e resolveu assumir sua nova condição. Para a esposa foi um momento difícil porque existia amor. A harmonia familiar só ficou estável cinco anos depois da separação, quando a mãe de Andréia partiu para um novo relacionamento.
Andreia conta que mesmo durante esse período o pai sempre esteve presente. "Quando eles se separaram eu estava com dez anos e não entendia por quê". Aos 12 o pai a levou para um jantar e contou sobre suas preferências sexuais, sobre a paixão pelo companheiro. A partir daquele momento, segundo ela, as coisas ficaram mais fáceis. O problema que existia na sua cabeça estava resolvido. Andréia acredita que este diálogo sincero foi o responsável pelo entendimento. Aceitar naturalmente a homossexualidade do pai, diz ela, se deve a alguns fatores importantes. "Minha mãe é uma mulher independente, cabeça aberta, que sempre teve amigos gays. Eu cresci convivendo com pessoas de preferência sexuais fora do "convencional", o que contribuiu para que eu não tivesse preconceito", revelou.
*Todos os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados
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