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31.07.2003 | 03h00

Mito de João Camargo vira longa-metragem

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Ex-escravo, tropeiro e vagabundo, João de Camargo (1858-1942) viveu na cidade de Sorocaba, interior de São Paulo. Construiu a Igreja de Nosso Senhor do Bom Jesus da Água Vermelha, fundou uma religião e ganhou fama de milagreiro. Até hoje, é cultuado como santo - a imagem do preto velho pensando, vendida nas lojas de produtos religiosos, é inspirada nele. O ator Paulo Betti, sorocabano, faz parte desse séquito desde criança, quando escutava do avô e da mãe as histórias de nhô João. Para homenagear o líder religioso, decidiu contar a história dele em filme. Assim nasceu o longa-metragem Cafundó.

Nhô João, como é conhecido entre os fiéis, fundou uma religião sincrética, unindo os princípios cristãos aos do candomblé, da umbanda e até do vodu. Por conta disso e de sua enorme legião de seguidores, tornou-se até objeto de estudo acadêmico. Aos 22 anos, Florestan Fernandes escreveu a monografia "Contribuição para o Estudo de Um Líder Carismático", em que tenta explicar logicamente o culto à personalidade religiosa.

Betti divide a direção do filme com Clóvis Bueno, cenógrafo e diretor de arte. Os dois trabalharam juntos no teatro, na década de 1970. E agora estão estreando na direção de cinema. Bueno entrou em cena em 1996, quando o projeto estava no quarto ano de gestação. "Eu queria uma pessoa para profissionalizar a produção", conta. Desde os 10 anos Betti ouve as histórias de João de Camargo. O avô e a mãe foram os primeiros a falar de seus feitos e milagres. Betti cresceu fascinado pelo mito, tanto que, mesmo considerando-se um homem de esquerda, jamais deixou de seguir o culto.

Bueno não se sente identificado com o mito. Para ele, há várias personalidades semelhantes no Brasil, como o padre Cícero, no Ceará, o padre Donizeti, em Tambaú, no interior paulista. Em compensação, vê a história de nhô João como um exemplo. "Mostra como um homem nas piores condições pode construir sua própria poesia." Lázaro Ramos faz o papel de João de Camargo. Com a ajuda de uma equipe de maquiagem vai dos 20 aos 80 anos, com direito a uma parada pelos 40 anos.

Ramos substituiu o cantor e compositor Itamar Assumpção, morto recentemente, primeira escolha da dupla de diretores para o papel. Assumpção desistiu porque estava doente e não agüentaria a rotina estressante das filmagens. Dividem a tela com Ramos os atores Leandro Firmino da Hora, Leona Cavalli, Valéria Mona, Chica Lopes, Luis Mello, além de mais 50 personagens episódicos. Cafundó foi rodado em quatro cidades do Paraná: Paranaguá, Ponta Grossa, Lapa e Curitiba. Foram, ao todo, 72 locações.

Ambientado entre o fim do século 19 e o início do 20, o filme cobre quase seis décadas e se divide entre cenários urbanos e rurais, como o quilombo do Cafundó. A decisão de transferir a produção para o sul foi tomada em função da dificuldade de encontrar locações preservadas na cidade de Sorocaba e dos custos. A diretora de arte Vera Hamburguer explica que foi feita uma extensa pesquisa de época. "O Cafundó não é fiel aos quilombos, formados por cabanas de pau-a-pique bem simples. Era uma forma de fazer a ligação do personagem com a cultura africana."

Produção da Prole de Adão, de Paulo Betti, e da Laz Audiovisual, de Roberto Gennaro, em associação com a Gullane Filmes, dos irmãos Caio e Fabiano Gullane, Cafundó está orçado em R$ 5 milhões, dos quais apenas R$ 4 milhões foram captados. Caio Gullane informa que, apesar dos recursos, trata-se de um orçamento de médio porte.

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