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16.01.2018 | 11h37

Me Chame Pelo Seu Nome é um filme sedutor sobre a sedução

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Me Chame Pelo Seu Nome, do italiano Luca Guadagnino, é um filme sedutor e sobre a sedução. Baseado no livro de André Aciman, tem entre seus produtores o brasileiro Rodrigo Teixeira. Segundo as bolsas de aposta de Hollywood, o longa deve descolar algumas indicações no Oscar 2018 - os finalistas serão conhecidos dia 23.

O charme do filme, que estreia nesta quinta, 18, começa pela locação, o incrível interior da Itália, anos 1980, numa temporada de verão. Elio (Timothée Chalamet) é o jovem filho de uma família de intelectuais que mora numa mansão no campo. Eles recebem a visita do pesquisador norte-americano Oliver (Armie Hammer), que passa a morar na casa durante a estação.

O ambiente é liberal e intelectual. Oliver pesquisa a mesma disciplina do pai de Elio, a antiguidade. São modernos e estudam o passado; estudiosos, homens do mundo, sem preconceitos. A história toda se desenvolve nessa atmosfera cultivada, entre livros, ideias, música de piano, conversas que nunca cedem à banalidade.

Porém, a atmosfera não é etérea e nada tem de platônica. Guadagnino é focado na inteligência e cultura. As frases são inteligentes, as ideias, instigantes. Fala-se de livros e raciocina-se à maneira dos filósofos. Mas o jogo subterrâneo se dá entre essa pastoral platônica e nuances de corporalidade. De fato, o romance que aguarda seu despertar no centro da história não poderia ser retratado em uma atmosfera despida de carnalidade.

Guadagnino trabalha como esteta. Traz a luz da Itália, a vegetação abundante, riachos e lagos, um calor que se espessa na imagem. Mas também os corpos, que se exibem e se olham nos banhos preguiçosos à tarde. Envolve o filme numa aura levemente erótica. E nela encontra o seu centro nervoso - o desejo.

Ou seja, aquela estranha força gravitacional que faz com que corpo atraia corpo. Com o detalhe que um desses corpos é o de um iniciante, ainda indeciso quanto à sua sexualidade. Me Chame pelo Seu Nome é essa ciranda do desejo, que começa hesitante e se resolve na equação proposta pelo título: quando os nomes próprios dos amantes são intercambiáveis, a fusão é completa. Esse espelhismo é típico da paixão e, como ela, prazo de validade.

Representa, além do mais, uma obra do imaginário e não do real. A fantasia do amor total, que se realiza no desaparecimento do eu no outro. Distâncias são abolidas e, por um momento, os amantes vivem num só. É um plano idealizado, a que a pastoral do campo italiano serve como cenário ideal. No entanto, esse ambiente fantasmático, anunciado na proposta do título, acaba não se realizando no plano do desenvolvimento da imagem.

Em primeiro lugar porque da paixão se espera também intensidade e nesta Guadagnino é avaro. Prefere o encantamento estetizante e de bom gosto à pulsão e ao suor. Não há nada fora do lugar na história. Sequer um vinco. Nem nos corpos e rostos perfeitos nem no acolhimento de um tipo de amor que, em épocas passadas, não ousava dizer seu nome, como então se dizia. Depois, porque tudo é clean, ordenado, certinho, e portanto controlado. É o limite do filme.

Que, por outro lado, oferece momentos de prazer estético, como nos longos passeios de bicicleta pela campanha, a transformação de amizade em amor, o despertar da sexualidade, as conversas cultas e inteligentes, a compreensão ilimitada em relação à diferença - algo que faria bem até mesmo nos dias de hoje, mais de 35 anos passados da época de que trata a história.

Aliás, a trama é situada não por acaso no início dos anos 1980, época relativamente ‘calma‘ em relação às turbulências políticas e existenciais dos anos 1970 e ainda livre da paranoia da aids, que viria logo depois, transformando costumes e impondo um neomoralismo vigente até hoje. É como um intervalo feliz, férias de verão para a humanidade (parte dela, pelo menos) quase sempre às voltas com problemas reais ou imaginários que se sente incapaz de resolver.

O procedimento estetizante, no entanto, acaba por anular a tensão de uma história sem final feliz, em que a renúncia teria por força um papel importante. Mesmo a ambivalência é resolvida com elegância. A namoradinha francesa de Elio, a mulher que espera por Oliver na América, tudo se encaminha sem grandes dramas. Tudo é bonito. Mas, e daí? Como dizia André Breton, a beleza será convulsiva ou não será, e isto não é apenas uma ultrapassada plataforma estética do surrealismo. 

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Chico Ferreira

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