03.07.2017 | 00h00
O liberalismo é uma doutrina que se baseia na defesa das iniciativas individuais e que procura limitar a intervenção do Estado na vida econômica, social e cultural. Historicamente, o liberalismo jamais encontrou terreno fértil entre os brasileiros, que sempre buscamos no Estado um arrimo para necessidades e anseios. O cientista político Bolívar Lamounier considera que o patrimonialismo de origem ibérica, muito arraigado no Brasil, mas também o nacional-desenvolvimentismo que vicejou após a Segunda Guerra, militaram em desfavor das correntes liberais no país, resultando no que ele chama de "endeusamento do Estado".
Nos anos 50, o antiliberalismo se traduziu na campanha pública "O petróleo é nosso", uma das mais polêmicas da história do Brasil republicano, que defendia a estatização da exploração do petróleo e que resultou na instituição da Petrobras. Mais adiante, o golpe militar de 1964 que havia retirado a esquerda do poder e que inicialmente executou reformas liberais, em sua fase seguinte fez uma guinada e retomou práticas intervencionistas do Estado na economia. Enquanto a direita conduzia o país com mão de ferro, a esquerda avançava seu domínio na intelectualidade nacional tendo como plataforma as universidades federais. Assim, a partir do regime militar, ser "de direita" ou ser "liberal" passa a ser um conceito atrelado à ideia de autoritarismo e retrocesso. Com a vitória de Fernando Collor de Mello na eleição presidencial brasileira de 1989, houve uma revitalização liberal com a implementação de uma agenda de reformas para modernizar o país. O fracasso das medidas econômicas e os escândalos de corrupção que resultaram no impeachment de Collor, contudo, prejudicaram uma vez mais o avanço do liberalismo no Brasil.
Nos últimos anos, parece ter havido uma quebra da hegemonia esquerdista na cultura político-econômica. O fortalecimento de instituições privadas de ensino superior como a Fundação Getúlio Vargas (FGV), a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), a Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e a Universidade Presbiteriana Mackenzie são exemplos das transformações históricas da doutrina liberal no Brasil. Até mesmo tradicionais pensadores de esquerda, como o filósofo Vladimir Safatle, da Universidade de São Paulo, consideram que o pêndulo das políticas econômicas está voltando para a direção pró-mercado. Esse movimento indicaria um incipiente e gradual processo de liberalização no Brasil.
Na sociedade atual, um aspecto bastante marcante é o desinteresse do brasileiro médio pelo universo das ideias e teorias ideológicas, que trazem consigo muita abstração e pouca prática. Uma pesquisa recente da Fundação Perseu Abramo, ligada ao Partido dos Trabalhadores (PT), causou grande perplexidade em integrantes do próprio partido ao demonstrar que parcela significativa dos moradores da periferia de São Paulo tem inclinações liberais, isto é, prezam o esforço pessoal como indutor do sucesso, apresentam um enorme desejo de empreender e identificam o Estado não como um vetor de desenvolvimento, mas sim um obstáculo a ser superado para a realização de seus projetos empresariais.
O posicionamento político da maioria da população brasileira parece estar cada vez menos influenciado por profundas e elaboradas reflexões filosóficas ou matizes partidários. As discussões ideológicas ficam hoje reservadas a uma pequena camada da população com maior renda e escolaridade, e as diferenciações partidárias, bem, essas já não fazem mais sentido algum. Os cidadãos se interessam mesmo é pela ideia de ter a seu lado um Estado eficiente, no entanto, o que resta claro é que Estado brasileiro funciona de forma insatisfatória e essa percepção faz com que seja mais associado a um problema do que a uma solução.
É possível que o Brasil esteja experimentando uma reação liberal que avança no vácuo deixado pelos erros cometidos pela esquerda, mas ainda é cedo para afirmar que se trata efetivamente de uma tendência. As ideias liberais estão no ar, no entanto resta saber quem poderá transformá-las em propostas viáveis e consistentes, capazes de equilibrar justiça social e liberdade de ação.
Daniel Almeida de Macedo é Doutor em História Social pela USP
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