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10.08.2020 | 11h46

A importância dos Povos Indígenas

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Elizangela Vicuna

Divulgação

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O dia nove de agosto foi comemorado o Dia Internacional dos Povos Indígenas e há dezessete anos eu conheci nove desses povos aqui no Brasil e a partir de então, toda a minha visão de humanidade se transformou (ainda bem!).

 

Era o ano 2003. Eu, recém formada, com a ilusão quase infantil  que conhecia  o mundo e dominava todos os saberes, tive a  salvadora oportunidade de trabalhar como farmacêutica do Distrito Sanitário Especial Indígena de Cuiabá,  unidade sanitária da Fundação Nacional de Saúde, que era  responsável por planejar e acompanhar a execução dos serviços de saúde de nove etnias do estado de Mato Grosso.  Nunca na minha graduação eu cheguei a imaginar que teria como primeira experiência profissional algo tão desafiadora.

 

Lembro-me como hoje a primeira vez que pisei em uma aldeia. Era noite. Fiz uma viagem cansativa até o interior do Estado com a equipe de saúde, que de forma volante atenderia a população daquele território sanitário. Tudo era muito novo para mim e para eles, que me olhavam curiosos devido à novidade de ambos os lados. E bastou amanhecer para eu aprender, ali, já nos primeiros dias que saúde é algo bem mais amplo e complexo do que eu havia aprendido nos livros.

 

Com os povos que trabalhei – sim, no plural, pois cada etnia é uma cultura única e possui forma particular de conceber a saúde e a doença- eu aprendi que saúde é mais que poder ter o acesso aos serviços de saúde ou ter acesso aos medicamentos. Foi com eles que eu aprendi que saúde não se vendia em caixas; que saúde era muito mais.

 

Convivendo com eles eu aprendi como a saúde está relacionada com a cultura do indivíduo, com o direito de cada um levar a vida da forma como você entende o que é a vida.   Que a Saúde tem a ver com acesso ao alimento, ao direito à terra, ao direito à educação, ao saneamento básico e ao direito à existência e suas particularidades. E nada disso eu aprendi na faculdade. Nada. O que aprendi, representava muito pouco perto do que eu precisava saber para de fato construir uma assistência à saúde realmente efetiva.

 

E foi por esse caminho, o da constatação da total falência do modelo biomédico de atenção à saúde, que eu precisei buscar um campo que concebesse a saúde dentro de toda complexidade que ela compreende e foi aí que eu conheci o Sistema Único de Saúde e dele, acredito eu, que jamais saí.

 

Buscando me instrumentalizar para essa realidade tão complexa, fiz especialização em Políticas Públicas e meu mestrado. Foi estudando o Sistema Único de Saúde que consegui ferramentas para ajudar a implantar a Assistência Farmacêutica dentro do contexto da Saúde indígena, mesmo como todos os desafios que isso implica.

 

No meu mestrado me propus a estudar a inserção dos indígenas no fluxo de atenção à saúde nos âmbitos municipais e foi aí, na minha pesquisa, que fiquei face a face com o preconceito e a desigualdade social e constatei o quanto eles podem prejudicar o acesso aos serviços de saúde. Fiz uma pesquisa qualitativa, conversei com gestores municipais, com profissionais de saúde, com os indígenas para tentar levantar onde e como eles eram atendidos quando necessitados dos serviços de saúde fora das suas aldeias e vi que o mundo não é nada justo para algumas parcelas da população. Ouvi e presenciei falas de tentativas frustradas de acesso aos serviços de saúde, seja por preconceito, seja por um sistema de saúde que é pouquíssimo preparado para acolher a diferença. Foi aí que aprendi que um profissional de saúde, para assim ser verdadeiramente denominado, não pode assistir o cenário de saúde de dentro da sua unidade de saúde e sim precisa ser um ator social que ajuda a transformar esse cenário de inequidade.

 

Mesmo não trabalhando atualmente com saúde indígena, tenho acompanhado com muita preocupação os impactos e desafios do enfrentamento da pandemia causada pelo novo coronavírus dentro desse contexto, seja pelo perfil dos agravos que acometem atualmente a população, seja pelos aspectos culturais e até pela de dificuldade para se efetivar o acesso aos serviços de saúde nas cidades.

 

Trabalhar com saúde indígena é um desafio diário, e o crescimento profissional e pessoal, chegam na mesma proporção. Aos colegas farmacêuticos fica o convite: aproximem-se da organização da saúde indígena do seu município. Acredite: você terá muito a contribuir e receberá muito em troca.

 

Elizangela Vicuna é farmacêutica, especialista em Políticas Públicas, mestre em Saúde Coletiva, trabalhou como farmacêutica do Distrito Sanitário Especial Indígena de Cuiabá/FUNASA e atualmente é vice presidente do CRF MT e professora de pós graduação na área de Fitoterapia Clínica.

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