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18.09.2020 | 10h48

A terra ficou sem forma e vazia

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Teobaldo Witter

Sucena Shkrada Resk

Sucena Shkrada Resk

Vivo em Mato Grosso há 44 anos. A vinda tinha objetivo bem definido de atuar como pastor na IECLB e como professor em escola comunitária, junto a migrantes que chegavam à região. Quando cheguei a Barra do Garças, muita chuva. Em fim de agosto de 1977 fui para Sinop. Durante o período, houve profundas transformações por aqui.

 

Em relação à natureza, fatos me impressionaram muito, na época. O longo período sem chuva. Durava até 6 meses. No cerrado estavam as árvores contorcidas e capim seco. Assim permaneciam até o tempo certo de brotar e florescimento. Raramente havia algum fogo em uma e outra região. Na floresta alta havia muitas estradas abertas, mas com as copas das árvores por cima se encostando, formando um túnel. Havia secas prolongadas, mas a umidade nas estradas das florestas e as folhas maduras no chão seguravam umidade. Havia fumaça em áreas de madeireiras que queimavam os restos das toras e a serragem. Mas nas regiões de cerrado e floresta, apesar do clima seco, não havia fumaça. Nos rios, havia sempre água muito limpa, transparente.

 

Os migrantes que aqui fixavam residência era, na maioria, gente pobre. Alguns muito pobres. E tudo estava por fazer. As cidades foram construídas. Florestas e cerrados foram derrubados. Pastagens e lavouras ocupavam o seu lugar. É certo que tudo isso foi feito num processo violento, com potentes máquinas e correntes. O fogo, em princípio, foi ateado com cuidado para não escapar do controle. Finalidade foi para ajudar fazer roças ou pastagens.

 

Muitas pessoas fraquejaram nestas lidas. Foram morar nas periferias das cidades, viver de bicos, voltar ao lugar de origem ou seguir migrando. Quem conseguiu ficar na região, virou proprietário, dono de terras ou peão. Na medida em que recursos financeiros foram chegando, cada vez mais, loucamente, imensas lavouras ou pastagens tomam conta da paisagem. O fogo e o veneno foram se tornando o modus operandi de lidar com a terra. Mas agora não tem mais o cuidado inicial.

 

O cerrado, o pantanal e a floresta estão ardendo em chamas e viram cinzas. Árvores, vegetais, rios, animais, toda vida está morrendo em meio ao desespero na busca por saída que não encontra. O que consegue fugir das chamas do fogo, morrer de sede e fome. A morte da natureza condena a humanidade. Indiferença é geral. O povo finge não ver. O exército cruzou os braços. O governo federal nega a proporção desastrosa do fogo. Dizem: o fogo faz parte da história. Somente algumas centenas de pessoas estão abandonadas nas suas lutas de salvar os animais e florestas. Agora o fogo está incontrolável. Está diretamente ligado à presença humana. A ganância e o consumo sem limites estão conduzindo para o caos. Deixamos de ser humanos? Por que tanto fogo?

 

E terra estava sem forma e vazia. Havia trevas sobre a face do abismo. O Espírito de Deus pairava sobre as águas (Gn 1.1). Deus olhou sobre as cinzas. Disse: Tu destruíste a minha criação. E Deus chamou: onde tu estás, humanidade criada? O silêncio foi profundo, porque os animais e as florestas foram queimadas. Os humanos viajaram ao Caribe e a Dubai para gozar a vida.

 

O que fazer? Tem solução? Sim, com certeza. Encontrar as causas. Segundo avaliação de autoridades de investigação, mais de 90% do fogo é provocado por mãos humanas. O fogo seria ateado por três motivos: queimar capim para virar pastagem, mato para ampliar fronteira e aumentar a propriedade ou marcar grilo ou por simples vontade de ver a tragédia do fogo.

Agir preventivamente. Cuidar da vida. Depois que o fogo embala, será muito difícil controlá-lo. Por isso, ações de prevenção são necessárias. Neste sentido, deve-se educar para a responsabilidade, treinar todos os moradores para ações preventivas. Todo fogo inicia pequeno e ai pode ser apagado. Cabe ao estado brasileiro e ao agronegócio a tarefa de criar as condições para que o fogo não se expanda. E ao sistema de justiça punir as pessoas do fogo criminoso.

 

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