Bia Willcox 10.04.2026 | 19h01
Quem era a mulher antes? Em muitos casos, foi educada e programada a acreditar que sua felicidade estava no outro: marido, filhos, casa. Sua realização vinha do cuidado e do suporte. Não por falta de ambição, mas por falta de condições para que seus desejos se tornassem conscientes. Não havia projeto próprio: havia adequação, muitas vezes incorporada como verdade íntima.
Mais do que opressão visível, havia um sistema que dava sentido a essa vida. Papéis rígidos, injustos, mas reconhecíveis. Hoje, isso muda. Mulheres estudam, escolhem, recusam, constroem-se sem validação externa. O sistema se desorganizou e, embora não tenha desaparecido, fragmentou-se.
Toda transformação cobra um preço. O homem, antes referência central, perde esse lugar. E quando o que te organizava deixa de fazê-lo, surge desorientação. Sem novas referências, parte do comportamento masculino oscila entre insegurança, frieza e ressentimento. Promessas antigas deixaram de valer sem serem renegociadas.
Nesse terreno, cresce a chamada “red pill”: uma visão que interpreta frustrações como prova de que homens foram prejudicados. Relações viram mercado, afeto vira transação, mulheres são reduzidas a estereótipos. A internet amplifica: oferece pertencimento, explicação e identidade, mas também distorção.
Jovens encontram respostas simples para dores reais. O risco é a escalada: discurso de ódio, normalização da agressividade e, em casos extremos, violência. Feminicídios e estupros não nascem nesses espaços, mas podem ser alimentados por eles. E exemplos concretos não faltam para chocar o país, como os assassinatos da comandante da Guarda Municipal de Vitória (ES) Dayse Barbosa Matos e da soldado da Polícia Militar de São Paulo Gisele Alves Santana, que expõem como a violência de gênero pode atravessar diferentes esferas sociais e institucionais.
A resposta precisa ser coletiva: família, escola, Estado e plataformas. Não basta regulação; é formação humana. Educar para a igualdade é formar emocionalmente, ensinar frustração, responsabilidade e empatia.
Sem empatia, não há sociedade. Apenas convivência tensa. Meninos não precisam ser capturados pelo ódio. Meninas não precisam desistir do amor. É possível formar ambos para algo maior.
Bia Willcox é advogada, empresária, educadora e jornalista.
Professora e aluna. Filha, mãe e avó.
Desde sempre curiosa, é atenta e tenta ser forte sempre.
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