31.08.2026 | 11h06
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Não tem um dia nesse consultório em que não se derrame um café. Pode ser no chão, no tapete, na poltrona ou no divã, vai ter café fora da xícara - e fora da boca do sujeito derrubador. Tá bom, vai, todo dia é exagero. Três vezes por semana pelo menos, vou cravar 3 vezes. Embora semana passada tenham sido 5 o que configura todo dia. E hoje cedo já se deu a primeira derrubada. O povo tá nervoso? Desatento? Tá quente demais o café? Há comunicação inconsciente entre o último e o próximo agente do desastre? Não sei dizer e não estou sozinha. Pode procurar aí nos textos, Freud nunca mencionou Nespresso.
Três curiosidades me perseguem neste fato (que eu chamaria de curioso só pra ser educada, mas não quero fazer essa repetição feíssima e nem estou interessada em ser educada. Gente, é muito Veja multiuso pra dar conta): 1. se são tão escorregadias assim as minhas xícaras, por que eu nunca derrubei?; 2. por que ninguém derruba água; 3. por que ninguém parece chateado quando os acidentes acontecem?
Em pesquisa informal que venho fazendo, me dei conta de que há um grupo de derrubadores reincidentes - vou chamá-los de grupo 1. Dentre os bebedores de café, a maior parte dos agentes do desastre são os que preferem as cápsulas escuras. A turma da torra clara - grupo 2 - segura sua xícara como se deve. Divididos entre os que derrubaram no máximo 2 vezes - grupo 1A - e os que já o fizeram de 3 para cima - grupo 1B -, o 1B quando não derruba também não toma o café até o final. O 1A já pediu açúcar em algum momento e o 2 preferem água sem gás.
Pedindo ou não, não tenho açúcar pra oferecer e talvez os derrubamentos sejam mesmo um castigo. De toda forma, ontem fui ao supermercado. Faltavam o Veja, papel toalha, café (do escuro e do claro), água com e sem gás. Comprei uma caixinha de açúcar na tentativa de me redimir. O primeiro analisando de hoje (1B) começou o dia derramando o café na própria roupa. Passado o susto, parece que queimou um pouquinho e ele estava de camisa branca, achei interessante a cena. Como se houvesse uma responsabilização inaugural. Não caiu uma única gota no meu espaço, quase como se o próprio corpo do protagonista daquela ação a tivesse contido, sabe assim? Ele me pediu desculpas e eu disse que não precisava, pela primeira vez era verdade.
Cá pra nós, achei simbólico. Começamos bem a semana. Tomara que tenha começado por aí também. Bora cuidar das nossas coisas, ainda que queime um pouquinho, a gente dá conta.
Roberta D'Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br
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