17.10.2026 | 17h17
Divulgação
Há muitos anos, os programas de reforma de casas começaram a fazer parte da programação da TV brasileira. Claro que foi um modelo importado. Com a chegada da televisão por assinatura, esses programas invadiram ainda mais nossas casas. Já não tínhamos apenas cópias: surgiram também produções próprias, criadas por nós e adaptadas à nossa realidade.
Descobrimos que era “fácil” ter uma casa linda, embora, com frequência, fosse preciso lidar com amianto, cupins ou mofo preto, que poderiam colocar toda a reforma em risco. Brincadeiras à parte, quem assiste a Irmãos à Obra provavelmente entendeu a referência. Mesmo com tanto drama, amamos acompanhar as transformações, pois são justamente esses imprevistos que humanizam o programa. O antes e o depois nos prendem, queremos ver o processo, mas o que realmente nos faz ficar é a transformação. Parece fácil, parece rápido e o resultado é incrível.
Então, surgiu o Instagram, com milhares de designers e arquitetos expondo seus belos trabalhos. Afinal, o marketing tradicional, analógico, praticamente deixou de existir, e é assim que o “quem é visto sempre é lembrado” funciona hoje.
Acontece que esse modelo de marketing acabou influenciando as pessoas mais do que deveria. Os formatos impostos pelo algoritmo fizeram com que os conteúdos se tornassem repetitivos e, de certa forma, retirassem a vida real do processo. Para se ter uma ideia, as publicações que mais geram engajamento são aquelas com fotos de antes e depois. Ninguém quer ver o processo. Para quê? Queremos ver logo o que pode ser feito.
A tendência de mostrar a casa em meio ao caos, estalar os dedos e, num passe de mágica, vê-la linda novamente esconde meses de projeto, meses de reforma, dores de cabeça e gastos elevados. Todo mundo quer um projeto para ontem. Visto que “o pedreiro já está contratado e já está quebrando tudo aqui!”. Do Instagram, para o Pinterest. As publicações do Instagram são replicadas no Pinterest, e o algoritmo dá um jeito de transformar tudo em uma coisa só. Em uma pesquisa rápida, encontramos diversas imagens diferentes entre si, mas semelhantes em seus elementos, cores, proporções e formas.
Assim, as imagens passam diante dos nossos olhos e temos a impressão de estar vendo sempre mais do mesmo.
Na pandemia, foi o boom das reformas. A busca por projetos de interiores aumentou consideravelmente, pois muitas pessoas que passavam o dia no trabalho passaram a ficar confinadas dentro do mesmo espaço. E, quando olhamos sempre para o mesmo ponto, começamos a perceber defeitos, por exemplo, algo que está torto, muito alto, poderia ser mais claro, é desconfortável ou poderia ter outra cor. “E se eu pintasse tudo?”
Justamente nessa época, as tendências de cores apontavam para tons de bege e off-white, para tudo aquilo que trouxesse descanso, aliviasse o estresse e oferecesse uma sensação de acolhimento. As tendências de decoração também se apoiavam no design biofílico, que traz a natureza para dentro dos espaços fechados, como se o ambiente externo fosse incorporado ao interior. Estilos mais minimalistas, como o escandinavo e o japonês, passaram a ser adotados nas casas brasileiras. Faz sentido? Faz. Mas para quem?
As pessoas até conseguiram adaptar uma coisa ou outra, mas nem todo mundo quer deixar a casa inteira clean, monocromática e com algumas plantinhas. E foi essa padronização que começou a cansar. Aos poucos, surgiu uma reação: do estilo importado ao estilo de casa com cara de casa, ou até mesmo de casa de vó. Isso significa que as pessoas sentem necessidade de inserir nos espaços elementos que tragam pertencimento, despertem memórias familiares e iluminem os ambientes com boas lembranças. Acima de tudo, querem decorar suas casas com pedaços de tudo aquilo que as constitui.
Tem a almofada que a tia tricotou, o jogo de xícaras herdado da avó (ao qual faltam algumas peças, completadas com outras mais modernas), os penduricalhos trazidos de uma viagem ao Nordeste e as cerâmicas marajoaras, tudo junto e misturado com o quadro de Tiradentes. Durante muito tempo, as pessoas tiveram vergonha de mostrar suas casas como realmente são, até mesmo para os familiares, porque “isso não está na moda”. Ora bolas! Mas a casa é sua!
O movimento de misturar cores e elementos ganhou força também com o crescimento do YouTube e de canais que visitam casas reais, sem a intervenção de designers ou arquitetos, decoradas aos poucos pelos próprios moradores. Algumas casas têm muitos elementos. Para mim, não funciona, mas não sou eu quem mora ali. Como designer de ambientes, preocupada em proporcionar bem-estar de verdade aos moradores, faço questão de entender o cliente e as pessoas que utilizarão os espaços. Busco inserir elementos que façam sentido para elas, que remetam a momentos felizes e contem suas histórias.
Na finalização do projeto, sugiro também o uso de peças que estavam escondidas, guardadas desde que chegaram à casa.
Pergunto sobre a história do objeto, quem o presenteou e o que ele representa. Se os olhos brilham ao contar essa história, sei que aquela peça merece um lugar de destaque. Afinal, são esses elementos únicos que deixam um espaço com cara de lar. É assim que as pessoas reconhecem aquele ambiente como seu.
Graziela Marchezini é designer de ambientes formada pela UEMG e sócia-fundadora da Grazie | Design de Ambientes, com atuação em projetos que aliam estética, funcionalidade e identidade.
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