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14.09.2020 | 14h44

E o pós?

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Roberta D'Albuquerque

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Estive ontem no teatro para assistir a Pós-F. que estreou no último sábado. Estive no teatro desse jeito novo de se ir ao teatro, meio de pijama, em casa, diante do computador. Ainda assim, fez sentido para mim parar para ouvir o texto de Fernanda Young dirigido por Mika Lins e interpretado por Maria Ribeiro.  

 

Fez sentido porque o texto  é bom. Fernanda era uma mulher que sempre me intrigou, gosto da sua produção, da maneira como se posicionava diante do todo dia da vida. Fez sentido porque a atuação é também boa, e Maria Ribeiro, como Fernanda – mas de uma outro jeito completamente diferente – também me interessa. Direção, direção de arte, trilha sonora e fotografia estavam igualmente no ponto. E por no ponto não digo como eu esperava, porque teatro quando atinge expectativas está, para mim, fora do ponto. Pós-F. tem o ponto do susto.  

 

Agora, fazer sentido é diferente de fazer bem, certo? Gostei muito de ter visto e indico com força, mas dormi tão mal essa noite. Fiquei tão angustiada. E essa é a exata razão pela qual indico que vocês, como eu, apostem na experiência desse teatro novo. Se movimenta é porque vale a pena.  

 

Semana passada, estive na reunião de pais da escola de minhas filhas – e de novo, de pijama, aqui dentro de casa. O coordenador da Lalá, minha mais velha, comentava sobre a falta que os trajetos de casa até a escola e da escola pra casa, fazem no dia a dia dos alunos. Penso mesmo sobre meus analisandos, o sair para e do consultório, têm um papel importantíssimo no andamento da análise. É tempo tanto de preparar-se quanto de pensar sobre o que se deu ali.  

 

Os toques da sala de teatro que anunciam a proximidade da sessão, o sair de casa, desligar o telefone, a possibilidade de estar num lugar outro, tanto externo quanto interno são mais do que importantes, são necessários. Eu estava aqui jantando e pá lá vem Fernanda; estava com ela e pá acabou. É muito. Uma vivência que se interrompe de forma brusca demais. Um corte duro de suportar. Em um dos trechos do livro que deu origem à peça, ela diz que morreu durante a doença do marido e que era agora outra. Que lutou muito para construir aquela que morreu, embora gostasse da nova que tinha nascido. Puxa vida. Que punk saber que a recém nascida viveu tão pouco. Que punk deitar para dormir com essa fala… A vida é trajeto. Assistam. Faz sentido. Boa semana queridos.    

 

Roberta D'Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br 

 

Coluna semanal atualizada às segundas-feiras.

 

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