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21.08.2019 | 11h21

Erro feio

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Heródoto Barbeiro

Divulgação

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O presidente era bom de entrevistas. Suas declarações repercutiam em todo o país e rapidamente eram aplaudidas pelos apoiadores e criticadas pelos adversários. Finalmente tomou a decisão de atacar diretamente os que se opunham ao Estado brasileiro. Afinal era um parlamentar e tinha, pelo menos, uns 28 anos de carreira política. Classificou que o país sofria de uma ameaça comunista, mas não oriunda do comportamento do povo e dos trabalhadores, ordeiros e democratas. Mas no aparelhamento, ou infiltração, como gostava de dizer, em comandos administrativos e dali influenciavam na condução dos destinos do governo. Assim, os sindicatos deveriam ser libertados de influências políticas da cúpula que se eternizavam desde a criação dos mesmos. Deixou claro que não compactuava com o governo anterior que se apoiou em forças das esquerdas influenciadas por países socialistas como Cuba. Era chegada a hora de trocar o modelo intervencionista do Estado na economia por uma abertura liberal, com crescimento e distribuição de renda. Enfim pular de cabeça no capitalismo, sem vergonha.

 

O país precisa ser reformado, repetia o presidente. Para isso seria necessário fazer mudanças na ordem social e econômica. Elas seriam pautadas com a preservação integral do princípio da propriedade privada, que é o motor do crescimento, aumento da oferta de emprego e geradora de oportunidades para que outras camadas da população também tenham acesso a bens e serviços. Todos têm o direito de melhorar de vida, dizia ele. O Brasil das reformas é o Brasil democrático contra os privilégios e contra os extremismos. É o Brasil sem frustrações. Esperançoso, rico e mais justo, declarou ele aos jornalistas que o acompanhavam no Rio de Janeiro. Mais do que nunca é preciso esquecer o passado, a mente clara, para pensar sem ódios e sem rancores. A turbulência política gerada pelo governo anterior deveria ser suplantada com o pensamento voltado para Deus, grato à sua proteção ao Brasil e ao seu povo. O auge da crise, felizmente, passou e agora seria necessário conter a inflação, baixar os juros, garantir a presença de investidores nacionais e internacionais, enfim, mergulhar no desenvolvimento capitalista mundial, como apoio dos grupos americanos e europeus, repetia.

 

A legalidade é anticomunista mas não é antipopular, disse o presidente no final do mês de março. Há a restauração imediata da paz com legalidade e disciplina e com a hierarquia restauradas nas Forças Armadas. No auge da crise a hierarquia militar tinha que ser ouvida e foi. A paz está mantida. A legalidade engrandecida. A disciplina e hierarquia rejuvenescidas. A legalidade democrática conduzira o país às eleições e ele mesmo não escondia de ninguém que seria candidato à reeleição na presidência da República. Será a continuidade do regime, já restaurado com a posse, pelo Congresso do meu eminente companheiro de partido, disse ele em entrevista para a revista O Cruzeiro, na sua Edição Histórica da Revolução, o presidente Ranieri Mazzilli. Juscelino Kubitschek, senador da República, dava publicamente apoio ao golpe militar que depôs o presidente constitucionalmente eleito João Goulart. Acreditava que a presença dos militares seria mais uma salvação uma intervenção rápida e cirúrgica na política com a volta aos quartéis e a eleição presidencial marcada para 1965. Errou feio.

 

Heródoto Barbeiro é editor chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma.

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