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06.07.2026 | 11h57

Estamos diagnosticando o diabetes tarde demais?

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Mariana Ramos

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Vale refletir sobre uma pergunta importante: estamos identificando a doença apenas quando ela já está instalada?

Infelizmente, na maioria das vezes, sim.

 

Estima-se que milhões de pessoas convivam com diabetes sem saber que têm a doença. Isso acontece porque o diabetes tipo 2 pode permanecer silencioso durante muitos anos.

 

O diabetes tipo 2 não surge de um dia para o outro. Antes que os níveis de glicose no sangue atinjam valores compatíveis com o diagnóstico da doença, o organismo costuma passar anos emitindo sinais silenciosos de que algo não está bem. O problema é que esses sinais frequentemente passam despercebidos.

 

O primeiro estágio costuma ser a resistência à insulina, condição em que as células deixam de responder adequadamente ao hormônio responsável por controlar a glicose no sangue. Para compensar essa dificuldade, o pâncreas passa a produzir cada vez mais insulina. Durante algum tempo, essa estratégia funciona, mas, com o passar dos anos, em pessoas suscetíveis, o organismo perde essa capacidade de compensação e a glicose começa a subir.

 

Antes do diabetes propriamente dito, existe o chamado pré-diabetes, uma fase intermediária em que os níveis de glicemia estão acima do normal, mas ainda não são suficientes para caracterizar a doença. É justamente nesse momento que existe uma grande oportunidade de evitar ou retardar o desenvolvimento do diabetes por meio de mudanças no estilo de vida e, em alguns casos, com tratamento medicamentoso. Vale lembrar que o pré-diabetes não significa que a pessoa inevitavelmente desenvolverá diabetes. Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, muitos pacientes conseguem impedir essa progressão.

 

Outro sinal que merece atenção é a gordura no fígado, conhecida como esteatose hepática. Atualmente, essa condição passou a ser chamada de doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), mas o termo "gordura no fígado" ainda é o mais conhecido pela população. Hoje sabemos que ela não representa apenas um problema do fígado, mas também um importante marcador de alterações metabólicas. Muitas pessoas descobrem a esteatose em um exame de rotina sem imaginar que ela pode estar associada à resistência à insulina e ao aumento do risco de diabetes.

 

A circunferência abdominal também é um indicador importante. O excesso de gordura concentrada na região da barriga está diretamente relacionado à inflamação do organismo e ao aumento da resistência à insulina. Nem sempre o peso na balança reflete esse risco. Pessoas que apresentam acúmulo de gordura abdominal, mesmo sem obesidade importante, podem desenvolver alterações metabólicas significativas.

 

O histórico familiar é outro fator que não deve ser ignorado. Ter pais ou irmãos com diabetes aumenta consideravelmente a predisposição para desenvolver a doença. Nesses casos, o acompanhamento médico e a realização periódica de exames tornam-se ainda mais importantes.

 

A boa notícia é que o diabetes pode ser identificado muito antes de causar sintomas ou complicações. Além da glicemia de jejum, exames como a hemoglobina glicada e, em situações específicas, o teste oral de tolerância à glicose ajudam a detectar alterações precoces. Quando associados à avaliação clínica, à medida da circunferência abdominal, ao histórico familiar e à investigação de fatores como gordura no fígado, permitem identificar pessoas em maior risco e iniciar intervenções precocemente.

 

O grande desafio é mudar a cultura de procurar atendimento apenas quando aparecem sintomas. No diabetes tipo 2, quando sede excessiva, perda de peso, aumento da frequência urinária ou visão embaçada surgem, muitas vezes a doença já está presente há bastante tempo e os vasos sanguíneos, os rins, os olhos e os nervos podem já estar sofrendo as consequências.

 

Neste Dia Nacional do Diabetes, 26 de junho, a principal mensagem é clara: prevenir é sempre mais eficaz do que tratar as complicações. Conhecer os fatores de risco, realizar exames periódicos e buscar orientação médica antes do aparecimento dos sintomas pode fazer toda a diferença para preservar a saúde e a qualidade de vida. No diabetes, esperar os sintomas aparecerem quase nunca é a melhor estratégia. Quanto mais cedo identificamos o risco, maiores são as chances de evitar a doença e suas complicações.

 

Mariana Ramos é endocrinologista na Fetal Care, em Cuiabá-MT.

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