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05.05.2026 | 09h00

Estratégia X Catástrofe - Empresas sem controle de caixa podem quebrar na Reforma Tributária

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Marlene Martins

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A Reforma Tributária tem sido tratada por muitos empresários como uma ameaça iminente. No entanto, essa percepção revela mais sobre a fragilidade da gestão financeira no Brasil do que sobre a própria mudança no sistema tributário. O problema não começa em 2026, porque já existe há anos dentro das empresas.

 

Segundo levantamentos recentes, grande parte das empresas brasileiras ainda não iniciou o mapeamento dos impactos da nova tributação. Isso confirma um padrão: o empresariado brasileiro ainda atua de forma reativa, e não estratégica.

 

A verdade é direta: não existe preparação tributária sem organização financeira. Empresas que não dominam o próprio fluxo de caixa, que misturam finanças pessoais com as jurídicas e que não confiam nos próprios números não estão atrasadas por causa da reforma. Elas estão estruturalmente vulneráveis. A reforma apenas acelera a exposição dessas fragilidades.

 

Há um equívoco recorrente na forma como muitos empresários enxergam o cenário atual. A Reforma Tributária não está exigindo nada além do que sempre foi essencial: coerência nas transações, clareza nos indicadores financeiros e disciplina na gestão. O que muda agora é o nível de consequência para quem não se adapta.

 

O risco, portanto, não é a reforma em si, mas o modelo antiquado de gestão. Empresas que competem exclusivamente por preço, sem entender sua margem de contribuição, tendem a operar no limite — ou até no prejuízo — sem perceber. Algumas sobrevivem por desorganização ou por falta de controle. Esse modelo não se sustenta em um ambiente mais transparente e estruturado.

 

Diante disso, falar em “tragédia anunciada” não é exagero. Mas é importante deixar claro que a tragédia não é tributária, é gerencial. A reforma apenas antecipa o inevitável para empresas que não possuem base financeira sólida.

 

Dessa maneira, o tempo surge como o componente mais estratégico. O ano de 2026 deve ser encarado como um marco de virada cultural. Não há mais espaço para adiar decisões. Organizar o fluxo de caixa, validar a demonstração de resultados e estruturar processos básicos como pedidos, emissão de notas fiscais e pagamentos deixou de ser diferencial. Agora é requisito mínimo de sobrevivência.

 

Existe um ponto técnico decisivo que ainda é ignorado por muitas empresas: a vinculação automática entre a nota fiscal e o recebimento financeiro. Pix, cartão de crédito, cartão de débito e boleto bancário precisam estar integrados ao documento fiscal de origem. Sem essa conexão, não existe controle — apenas tentativa de organização.

 

No novo modelo tributário, isso impacta diretamente a apuração dos créditos, a rastreabilidade das operações e a segurança fiscal. Não basta emitir a nota. É preciso comprovar, com precisão, como e quando o dinheiro entrou no caixa.

 

Outro fator crítico é o crédito tributário. Ele não pode mais ser tratado como um tema técnico restrito à contabilidade.

 

Crédito tributário bem gerido é dinheiro. Reduz imposto, melhora margem e protege o caixa.

 

Isso muda inclusive a relação com fornecedores. O fornecedor mais barato nem sempre é o mais econômico. Empresas mais preparadas irão considerar o impacto tributário das compras, avaliando o crédito gerado e o efeito real no caixa.

 

Por outro lado, empresas que ignorarem esse fator pagarão mais imposto do que deveriam — muitas vezes sem perceber.

 

Outro ponto relevante está na mudança de mentalidade em relação à contabilidade. O contador não pode mais ser visto como um gerador de guias. Ele precisa atuar como parceiro estratégico, orientando decisões com base em dados e créditos tributários.

 

A Reforma Tributária, portanto, não deve ser vista como um problema a ser evitado, mas como um filtro. Ela separa empresas organizadas de empresas improvisadas.

 

E, nesse cenário, sobreviverão — e crescerão — aquelas que entenderem que gestão financeira não é burocracia. É estratégia. É geração de caixa. É sobrevivência.

 

Porque, no fim, não vence quem fatura mais.

 

Vence quem sabe exatamente o que está fazendo com o dinheiro que passa pela empresa.

 

Marlene Martins é contadora e consultora de finanças empresariais.

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