Publicidade

Cuiabá, Quarta-feira 07/10/2026

Colunas e artigos - A | + A

29.08.2021 | 09h15

Homenagens

Facebook Print google plus

Daniel Medeiros

Divulgação

Divulgação

Convivemos com bustos e estátuas como quem espera o ônibus na fila e nem repara em quem está na sua frente ou atrás de você. Os rostos passam, alguns até raspam nossos ombros em suas marchas apressadas, e também seguimos rumo aos nossos compromissos sem fixar a atenção em quase nada. Nas praças, nos parques, em frente a prédios públicos, nos saguões das repartições públicas, nos pátios das universidades, hospitais, estádios de futebol, nos auditórios e teatros, na entrada de algumas cidades, lá estão eles e elas, com seu bronze oxidado, escurecido pelo tempo, as imagens dos personagens que deveriam ser importantes para os que decidiram investir tempo e recursos neles e cuja memória desejavam compartilhar com o futuro, em um esforço de registro permanente, de suspensão do tempo e de fixação dos valores que justificaram a escolha daquela pessoa ou daquele fato.


Há bustos e estátuas que são frutos da vaidade e muitas que são frutos da mistificação; há as que são frutos da propaganda oficial ou do desejo de agradar, como recompensa ou esperança de favores; há as que buscam reconhecer ou desagravar e as que buscam cumprir promessas ou destacar momentos justificadores de mudanças. “Lembrai-vos de 35!”, diz uma dessas esculturas, com um soldado com arma em punho. As homenagens são lembranças e lembretes, papéis com revelações importantes guardadas no meio de livros que empoeiram nas estantes.

 

Mas então o tempo passa, a cidade muda, as memórias se esfumam, outras se formam ou aquelas mesmas se rearranjam, como as pedrinhas nos caleidoscópios. Algumas das personas retratadas tornam-se personagens de outras narrativas, novas facetas de suas histórias são reveladas, novas fontes são descobertas, novas perguntas são feitas, cujas respostas reposicionam aqueles rostos e aqueles corpos esculpidos em poses majestosas e a visão sobre eles e elas muda de tom. Muitas vezes, o tom de drama se torna raiva, e o herói, desafeto. A estátua que homenageia vira ofensa e acinte.

 

Os italianos que chegaram aos EUA nos anos vinte queriam ter um elemento em comum com o novo país, fazer parte. Além da pizza e da tarantela, encontraram no genovês Cristóvão Colombo uma interface com aquela terra. E mandaram erigir estátuas do descobridor. Um século depois, muitas delas foram derrubadas porque Colombo não era mais o italiano que ajudou milhões de europeus a construir histórias em outro continente, mas o facínora que iniciou o extermínio dos povos originários. Uma estátua com pedestal de barro…

 

Homenageamos quem parece merecer um registro para a posteridade, por ter contribuído ou representando algo importante para nós. É nossa narrativa que queremos reforçar quando escolhemos alguém como especial. Getúlio foi o maior algoz dos comunistas na História do Brasil, um ditador sanguinário, mas hoje muitos o incensam por ter “lutado pelos trabalhadores”. Muitos atacam o projeto de privatização dos Correios, tornado empresa pública, com capital controlado pela União, em 1969, no auge da ditadura militar.

 

Para muitos paulistas, os bandeirantes desbravaram os sertões, descobriram riquezas e contribuíram decisivamente para a formação territorial brasileira; para muitos paulistas, os bandeirantes eram predadores de índios, destruidores de quilombos e devastadores ambientais. Para a primeira versão deles, mereciam uma homenagem, como a de Victor Brecheret ou Júlio Guerra. Para a segunda versão deles, tinta vermelha na homenagem de Victor Brecheret ou pneus queimando na homenagem de Júlio Guerra.

 

A História não é memória e derrubar estátuas e bustos não “destroem" a História. História se produz questionando o passado a partir das indagações sempre novas do presente. Ninguém está imune a perder a pose ou cair do cavalo. O importante não é jogar lenha na fogueira. O importante é prestar atenção ao que nos rodeia e não vivermos como quem espera o ônibus na fila e nem repara em quem está na sua frente ou atrás de você. Assim podemos perder o bonde da História e acabarmos, em plena democracia, tão duramente conquistada, dando vivas a quem acha que torturador é herói da Pátria.

 

Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica e professor no Curso Positivo.

Voltar Imprimir

Publicidade

Comentários

Enquete

Você concorda com o fim das bets?

Parcial

Publicidade

Edição digital

Quarta-feira, 07/10/2026

imagem
imagem
imagem
imagem
imagem
imagem
btn-4

Indicadores

Milho Disponível R$ 66,90 0,75%

Algodão R$ 164,95 1,41%

Boi à vista R$ 285,25 0,14%

Soja Disponível R$ 153,20 1,06%

Publicidade

Classi fácil
btn-loja-virtual

Publicidade

Mais lidas

O Grupo Gazeta reúne veículos de comunicação em Mato Grosso. Foi fundado em 1990 com o lançamento de A Gazeta, jornal de maior circulação e influência no Estado. Integram o Grupo as emissoras Gazeta FM, FM Alta Floresta, FM Barra do Garças, FM Poxoréu, Cultura FM, Vila Real FM, TV Vila Real 10.1, TV Pantanal 22.1, o Instituto de Pesquisa Gazeta Dados e o Portal Gazeta Digital.

Copyright© 2022 - Gazeta Digital - Todos os direitos reservados Logo Trinix Internet

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem a devida citação da fonte.