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19.05.2019 | 09h35

Milícia: o vácuo do Estado gera o poder paralelo

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Marco Antônio Barbosa

Divulgação

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As milícias vêm tomando conta dos noticiários político e policial do país. Descritas nominalmente no novo pacote anticrime do Ministro da Justiça, Sérgio Moro, estas facções se expandem em diversos estados, principalmente no Rio de Janeiro, onde dominam até o aluguel de prédios nas periferias, como investigado no caso do último dia 12 de maio, quando um conjunto habitacional irregular desabou na comunidade da Muzema, zona oeste da cidade. Mas por que as Milícias crescem?

 

O vácuo deixado pelo Estado sempre precisa ser ocupado. É neste momento que surgem os poderes paralelos. Quando não existe, por parte dos governantes, políticas para prover segurança, moradia, saneamento básico, gás, luz, entre outros itens de sobrevivência para os mais carentes, alguém toma esta responsabilidade em troca de dinheiro e poder. É a privatização das responsabilidades. Mas o preço é bastante alto e quem paga, mais uma vez, é o lado mais fraco da corda: a população.

 

Mas quem são os milicianos? São parte do Estado, travestidos de organizações ‘privadas’. Os mesmos que, do outro lado da moeda, também sofrem com o abandono dos políticos, mas possuem um pouco mais de acesso ao poder para se ‘virarem’. Policiais, que trabalham com salários ínfimos e com condições precárias, enxergam uma oportunidade. Agentes públicos, atolados em burocracias arcaicas e riscos não assumidos como, por exemplo, morrer por não liberar um ‘gato’ de luz ou uma obra irregular.

 

A falta de políticas públicas devasta as duas metades: os que prestam os serviços clandestinos e os que precisam de tais serviços. Este ciclo se retroalimenta. Assim como os cartéis do tráfico, as milícias utilizam também a mão de obra ociosa de uma população que não encontra a oportunidade do crescimento de renda pela educação. A escolha é única para quem não tem nem o que comer.

 

Organizadas e intrínsecas nas raízes mais fortes de um Estado falido, as milícias crescem e são cada vez mais difíceis de serem combatidas. Como acabar com o inimigo se ele é o próprio braço que deveria derrotá-lo?

É um câncer. Uma doença difícil de ser curada, mas o remédio está ao alcance dos nossos políticos há muito tempo. Ocupar os espaços deixados é caminho. Onde falta moradia, casas. Onde falta educação, escolas. Onde falta infraestrutura, saneamento básico, luz e água. Este é o tratamento a longo prazo.

 

Em curto prazo são necessárias grandes investigações isentas e independentes e leis mais duras para quem faz parte do crime organizado. Inteligência policial integrada em todo o país, além de salários e estrutura dignas para o risco assumido ao enfrentar estas facções.

Este ‘vírus’ é uma versão mais grave do crime organizado, pois já entendeu como se esconder e se expandir dentro do poder legislativo, executivo e jurídico. Somente com este coquetel e muita paciência conseguiremos evitar o domínio das milícias. Nota médica: o tratamento deve ser iniciado o mais rápido possível, antes que seja tarde para salvar o paciente.

Marco Antônio Barbosa é especialista em segurança e diretor da CAME do Brasil.

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