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30.03.2026 | 16h32

Na verdade, não

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Roberta D'Albuquerque

Divulgação

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Ouvi essa resposta hoje cedo da moça da padaria. Frequento o lugar há alguns anos — uns dez, eu acho — e encontro a atendente do balcão pelo menos duas vezes por semana. A pergunta que fiz foi o clássico: "Tudo bem?".

 

Nem precisava ter perguntado; vi logo da porta que a bichinha estava meio murcha. Essa menina é um encanto, muito querida com os clientes, o que facilmente poderia ser confundido com treinamento de RH — aliás, todo mundo ali é gentil. Mas, no caso dela, percebe-se que é genuíno. Dá para notar pelo jeito que ela se relaciona com os colegas do balcão para dentro, sabe? É justamente nesse convívio que a gente percebe quando a simpatia de fachada de alguns "cai por terra" na hora da troca com o colega.

 

Ela estava murchinha mesmo. Tão murcha quanto o croissant da padaria da frente, que amarga um balcão vazio enquanto a "minha" vive com fila de espera.

 

— Tá tudo bem? — perguntei.
— Na verdade, não — ela soltou.

 

Nós, analistas, nos espantamos pouco com respostas diferentes daquelas que aprendemos a dar no automático: o clássico "tudo bem, e você?". Fiquei ali, esperando a continuação do "na verdade, não", mas ela nunca veio. A menina pareceu se espantar com cada letra que saiu da própria boca. Se pudesse, ela as pescaria de volta e as empurraria garganta abaixo, só para deixar vazar um "está tudo ótimo" o mais rápido possível.

 

— Na verdade, não... está tudo ótimo! — emendou, com aquela falha na voz que a gente, sem querer, deixa transparecer.

Ela ruborizou, olhou para baixo e dava quase para tocar na sua esperança de que eu fizesse logo o pedido, antes que ela mesma se ouvisse confessar qualquer infortúnio de início de semana. Eu sorri, tentando comunicar algo como: "Eu sei, não tem problema; ninguém é obrigado a tanta simpatia o dia todo, a vida às vezes é trash mesmo, sinto muito".

 

Mas a moça atrás de mim já balbuciava sobre o próprio atraso e a demora na fila. Isso foi às sete da manhã e até agora não parei de pensar nela. Por que não disse nada? Como é possível ver tanto uma pessoa e não ser capaz de ajudar nem quando ela toma coragem e admite que precisa? Sei lá. Acho que passo lá amanhã de novo, para ver se ela topa, pelo menos, um dedinho de prosa.

 

E vocês, queridos, estão bem?

Roberta D'Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br

 

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