20.06.2026 | 11h00
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O debate sobre o glifosato voltou ao centro das atenções brasileiras após a ação movida pelo Ministério Público do Trabalho contra a ANVISA e a União. O pedido é ambicioso: retirar do mercado nacional a molécula mais utilizada na agricultura moderna. A justificativa é conhecida. Estudos apontariam riscos à saúde humana, especialmente relacionados ao câncer, e o princípio da precaução exigiria uma resposta firme do Estado. À primeira vista, parece um debate exclusivamente toxicológico. Mas não é.
Poucas moléculas carregam uma contradição tão grande quanto o glifosato. Para seus críticos, tornou-se um símbolo da agricultura industrial, dos organismos geneticamente modificados e da dependência de insumos químicos. Para seus defensores, representa uma das tecnologias que permitiram aumentar a produção de alimentos sem uma expansão proporcional da área agrícola. O problema é que símbolos raramente ajudam a compreender a realidade. E a realidade do glifosato é muito mais complexa do que a disputa entre mocinhos e vilões frequentemente apresentada ao público.
O primeiro aspecto que merece atenção é que a discussão costuma começar pelo fim. Fala-se sobre a molécula, mas pouco se discute a função que ela desempenha dentro dos sistemas agrícolas contemporâneos. No Brasil, o glifosato não é apenas um herbicida. Ele é uma peça importante da engrenagem que viabiliza o Sistema Plantio Direto, uma das principais tecnologias de conservação do solo desenvolvidas nas últimas décadas. É essa combinação que permitiu reduzir operações mecânicas, diminuir a erosão, aumentar a retenção de água no solo e ampliar a viabilidade de sistemas com duas ou até três safras anuais na mesma área.
Essa característica é particularmente relevante em um país tropical. Ao contrário da Europa ou do Canadá, o Brasil não possui um inverno rigoroso capaz de interromper naturalmente o crescimento das plantas daninhas. Aqui, a pressão biológica é praticamente permanente. O resultado é que a agricultura tropical depende intensamente de estratégias de manejo para manter a produtividade. Quando se discute a retirada de uma ferramenta amplamente utilizada nesse sistema, a pergunta não deveria ser apenas se existem riscos associados ao seu uso. A pergunta deveria ser também quais serão as consequências agronômicas, ambientais e econômicas de sua eventual substituição.
É justamente nesse ponto que o debate público costuma se tornar superficial. A literatura científica sobre saúde dedica enorme atenção à carcinogenicidade, aos mecanismos toxicológicos e às avaliações de risco. Essa preocupação é legítima e necessária. Entretanto, uma análise paralela da literatura agronômica internacional revela uma agenda completamente diferente. Os estudos mais recentes concentram-se em produtividade, manejo de plantas daninhas, resistência de espécies infestantes, custos de produção e sustentabilidade dos sistemas agrícolas. Em outras palavras, enquanto uma parte da ciência pergunta se existem riscos associados à molécula, outra procura entender como produzir alimentos em sua ausência.
Essa diferença de perspectiva ajuda a explicar por que as principais autoridades regulatórias do mundo chegaram a conclusões distintas daquelas frequentemente reproduzidas no debate público. A classificação do glifosato como "provavelmente carcinogênico" pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer tornou-se uma referência recorrente para pedidos de restrição e banimento. Ocorre que a IARC trabalha com identificação de perigo. Já órgãos como a EPA nos Estados Unidos, a EFSA na União Europeia e a própria ANVISA operam sob a lógica da avaliação de risco. A diferença pode parecer sutil, mas é decisiva. Uma substância pode apresentar potencial para causar determinado efeito em condições experimentais específicas sem necessariamente representar risco inaceitável nas condições reais de uso.
Isso não significa que o glifosato seja isento de problemas ou que deva permanecer eternamente no mercado. Nenhuma tecnologia agrícola deve estar imune à reavaliação científica. O ponto central é outro. Decisões regulatórias precisam considerar simultaneamente exposição, risco, alternativas disponíveis e consequências não intencionais. Um banimento abrupto pode reduzir um risco potencial e, ao mesmo tempo, aumentar outros riscos ambientais, econômicos ou sociais que raramente aparecem nos processos judiciais.
Talvez a pergunta mais importante não seja se o glifosato é bom ou ruim. Talvez a pergunta correta seja o que acontece com a agricultura quando ele desaparece. Quanto custaria substituí-lo? Quais seriam os impactos sobre o plantio direto? Quais herbicidas ocupariam seu espaço? Como reagiriam os custos de produção? O que aconteceria com os preços dos alimentos? E quais seriam os efeitos ambientais dessa transição?
A ciência regulatória existe justamente para responder a perguntas difíceis como essas. Não para absolver moléculas nem para condená-las previamente, mas para avaliar evidências, ponderar riscos e buscar soluções proporcionais. Quando a discussão é reduzida a slogans, perde-se a oportunidade de enfrentar o verdadeiro desafio: construir sistemas agrícolas cada vez mais produtivos, mais sustentáveis e mais seguros para trabalhadores, consumidores e meio ambiente.
O glifosato continuará sendo objeto de controvérsia por muitos anos. Mas, independentemente da posição de cada um, existe uma conclusão que deveria unir todos os lados do debate: decisões com potencial de afetar a produção de alimentos, a renda dos agricultores e o preço da comida precisam ser tomadas com base na melhor evidência disponível, e não apenas na força das narrativa.
Luis Eduardo Pacifici Rangel é ex-Secretário de Defesa Agropecuária e ex-coordenador-geral de Agrotóxicos e Afins, membro do Conselho Científico do Agro Sustentável; Carlos Ramos Venâncio, ex-coordenador-geral de Agrotóxicos e Afins; Lothar Langer Júnior, especialista em agronegócio, estratégia empresarial e comunicação técnica aplicada ao setor agropecuário
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