15.10.2026 | 11h21
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Há professores de quem nos lembramos pela maneira de explicar uma matéria. Outros, por uma palavra de incentivo, uma cobrança necessária ou pela paciência de ensinar de novo quando todos já pareciam ter entendido. Alguns nos acompanham pela vida inteira, mesmo depois que seus nomes deixam de aparecer nos cadernos. Permanecem nas escolhas que fazemos, na confiança que construímos e na maneira como enxergamos o mundo.
Rubem Alves traduziu esse vínculo ao escrever que os educadores, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser “especialistas em amor: intérpretes de sonhos”. A reflexão, presente em A alegria de ensinar, nos convida a olhar para quem está diante do professor, com suas dúvidas, seus desejos e suas possibilidades ainda por descobrir.
Neste Dia do Professor, penso no quanto essa ideia se realiza em gestos cotidianos dentro de uma escola. No olhar atento para o aluno que se calou. Na busca por outra forma de explicar um conteúdo. No cuidado com quem tem vergonha de perguntar. Na satisfação de acompanhar uma conquista que, para muitos, pode parecer pequena, mas representa um avanço enorme para aquela criança ou adolescente.
Há muito amor nesse trabalho. Um amor que exige conhecimento, preparo e responsabilidade. Que se expressa no planejamento de uma aula, na correção criteriosa de uma atividade e na disposição de compreender por que um estudante não consegue aprender. Que também sabe estabelecer limites, corrigir caminhos e mostrar que crescer exige esforço e compromisso.
Ser mestre envolve essa capacidade de orientar sem retirar do aluno o direito de descobrir. É ensinar a formular perguntas, sustentar uma ideia, ouvir opiniões diferentes e reconhecer um erro. É oferecer referências para que cada estudante construa, aos poucos, sua autonomia.
Quem vive o cotidiano escolar sabe que uma turma reúne histórias muito diferentes. Há quem chegue confiante e quem precise de tempo para se sentir capaz. Há talentos que se revelam cedo e outros que dependem de uma oportunidade, de um convite, de alguém que diga: tente, eu acredito em você.
O professor ocupa um lugar decisivo nesses encontros. Muitas vezes, percebe uma habilidade antes mesmo que o próprio aluno a reconheça. Ajuda a dar forma a uma curiosidade, apresenta um livro que desperta um interesse, encoraja uma participação que parecia impossível. Assim, participa da construção de sonhos e oferece conhecimento para que eles possam se tornar escolhas.
À frente de uma escola, vejo o quanto precisamos cuidar também de quem assume essa tarefa. Valorizar o professor exige escuta, respeito, condições de trabalho e oportunidades de formação. Cabe à gestão apoiar seu desenvolvimento e construir, com as famílias, uma relação de confiança e responsabilidade compartilhada pela educação.
As ferramentas de ensino mudam. Novas tecnologias ampliam o acesso à informação e trazem outras possibilidades para a sala de aula. Nesse cenário, o olhar do educador continua essencial para orientar, despertar o interesse e ajudar o estudante a atribuir sentido ao que aprende.
Educar gerações é aceitar que parte do resultado desse trabalho só será conhecida muitos anos depois. Um professor nem sempre saberá até onde chegou aquela conversa, que decisão nasceu de sua aula ou em que momento um antigo aluno se lembrou de seu conselho para seguir em frente.
Por isso, neste 15 de outubro, nossa gratidão vai além das lições ensinadas. Ela alcança a dedicação de quem reconhece, em cada estudante, uma pessoa em formação. De quem ensina com seriedade, acompanha com cuidado e encontra alegria no crescimento do outro.
Talvez seja essa uma das marcas mais bonitas de um mestre: ajudar alguém a descobrir o que pode se tornar e lhe dar confiança para começar.
Márcia Bezerra é diretora do Colégio ECSA e atua há 40 anos da área da Educação
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