15.06.2026 | 12h00
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Freud explica lindamente na Interpretação dos sonhos de 1900 a importância dos restos diurnos para um sonho. É como se eles representassem o ponto de apoio para a sua formação.
Acompanhando o ponto de apoio, entram os desejos e, esses sim, dão sentido à narrativa - passam o recado. Quem tiver preguiça pode ir direto no capítulo V onde está essa parte. Agora, quem tiver mais preguiça ainda, cola aqui que eu dou o resumo. Mentira. Colem no Freud e leiam inteiro que esse é dos mais bonitos. Só tô usando o bichinho de desculpa porque tô doida pra contar de um sonho.
Vê só: esse fim de semana, choveu um monte aqui em São Paulo. Não chuva grossa de fazer barulho o dia todo, mas aquela garoazinha que meio que passa mas não passa nunca. Aí, pronto, nada demais, fiz o básico do sábado. Acordei mais tarde que o normal, tomei café empenhada na palavra cruzada que voltei a gostar de palavra cruzada, liguei pra minha mãe de vídeo, fiz graça com um filtro que coloca uma bola de futebol na cabeça de quem fala, ela riu, fui pra academia, voltei pra
casa, tomei banho e troquei de roupa pra ver o jogo do Brasil na casa do meu namorado. Terminado o confronto entre Alisson, Vinicius Jr. , Bono e Ismael Saibari resolvemos começar uma série, Cabo do Medo com Javier Barden no papel principal. Tá na Apple TV. Punk.
Lá pra meia noite voltei pra casa e deitei pra dormir. Aí o sonho. Eu estava no consultório, na minha poltrona, escutando alguém que falava do divã. Dizia do medo que sente de de manhã quando acorda até o fim do dia. A voz trêmula, uma tensão que tomava conta da sala inteira. Até que toca o interfone, era minha mãe dizendo que o próximo analisando tinha subido. Eu reclamava que não, precisa me avisar antes de deixar subir, ela ria. Levanta-se do divã, frustrado pela interrupção, um cabo de guarda-chuva que enxuga as lágrimas com suas mãos de hastes articuladas. Eu digo que
ainda não é hora de levantar, temos tempo, ele faz que não com a cabeça. A cabeça de Javier como Anton Chigurh de Onde os Fracos Não Têm Vez. Aí sou eu quem fica com medo mas só até um biscoito Bono gigante abrir a porta com uma bola na mão. Ele tenta exatos 13 chutes, o gol era a minha cabeça, mas Anton Guarda-chuva defende todos. Nos acalmamos os três até que o Bono diz: “horizontal, 10 letras - principal músculo recrutado na fase concêntrica da cadeira extensora”. Aí eu
acordei. E o desejo tá onde? Sei lá, minha análise é só quarta-feira.
Boa semana, queridos, e se liga que sexta tem jogo.
Roberta D'Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br
Coluna semanal atualizada às segundas-feiras
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