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22.06.2026 | 15h43

Rejeição

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Roberta D'Albuquerque

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Ainda sobre Dramástico, o damasco dramático, fiquei aqui pensando: ele nem tem um emoji próprio. E, mesmo que tivesse, não é sinônimo de elogio. Ainda no quesito elogio, embora tenha a mesmíssima textura aveludada de um pêssego, nunca ouvi alguém dizer que fulano de tal tem "pele de damasco". Já ouviu?

 

No Pão de Açúcar aqui do lado de casa mesmo não tem damasco fresco, só seco. Quando tem. Porque se você pensar “ah, vou fazer uma farofa com frutas secas", uma granola, sei lá, vai pensar em uva, ameixa ou até tâmara. Vai ou não vai? O bichinho é rico em ferro, fibras, flavonoides, polifenóis, magnésio, potássio, vitaminas C e A, mas não caiu no gosto de nenhuma modinha da nutrição.

 

Você pode me dizer: "ah, Roberta, é por causa do caroço, certeza que é o caroço". É que o kernel (caroço do damasco) pode liberar cianeto e, se ingerido em grande quantidade, é capaz de envenenar e até matar. Certo, minha gente, mas pra que vocês vão engolir caroço de damasco, ainda mais em grande quantidade? Nem o coitado do damasco fresco vocês tão ingerindo. Sabe quantas toneladas de damasco a gente importa? Trezentas e oitenta. Eu tinha achado até bom, mas só até eu comparar às peras (80 a 90 mil toneladas), maçãs (60 a 80 mil) e até cerejas (2 a 5 mil).

 

Se comparado ao consumo de laranja, banana, maçã, mamão e melancia então, a humilhação beira o insuportável. Aqui, plantamos pouco, sabia? Eu também não, mas tenho me interessado. Sabe o que é? É que sempre que vou na casa de alguém e servem castanhas, nozes e damascos secos, o povo se joga nos potinhos e não há viva alma a pegá-los. Será que é porque deixa os dedos grudentos, ou porque faz menos barulho pra mastigar, ou pela falta de sal? Não sei, mas fico com dó. E como, e fico grudenta, e sinto falta de um salzinho.

 

Talvez a rejeição do damasco não venha com alarde nem com explicação honesta — é mais um tipo de desprezo polido, desses que ninguém assume. Ele não é recusado com firmeza, é simplesmente ignorado com educação. No fundo, o damasco não perde espaço para rivais mais fortes; ele perde para a falta de interesse mesmo, que é sempre a forma mais eficiente de exclusão. É o mais humilhante: não ser rejeitado, mas não chegar a ser cogitado.

 

Então veja, nem é tanto drama assim. Só pra gente pensar na próxima vez que for reclamar do drama alheio. Só isso mesmo. Boa semana, queridos.

 

Roberta D'Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br

 

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