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Entrevista da Semana - A | + A

FEMINICÍDIO 30.08.2020 | 17h29

'Na violência doméstica, existe um ciclo', explica delegado

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PJC-MT

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Nos primeiros 5 meses deste ano, 28 mulheres foram vítimas de feminicídio em Mato Grosso – homicídio em função de violência doméstica, familiar ou menosprezo e discriminação contra a mulher. O número de 2020 é 75% maior comparado ao que foi registrado no mesmo período de 2019, quando foram contabilizadas 16 mortes em todo o Estado.


Os dados são da Superintendência do Observatório de Violência, da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT). Já o levantamento do Monitor da Violência, parceria do G1 com o Núcleo de Estudos da Violência da Usp e Fórum Brasileiro de Segurança Pública, listaram os municípios do estado com mais casos.


Conforme o estudo, divulgado em março deste ano, o município que mais registrou casos de feminicídio no estado foi Primavera do Leste, com quatro mortes. A cidade é seguida por Sinop (3), Várzea Grande (3), Chapada dos Guimarães (2), Peixoto de Azevedo (2), Rondonópolis (2) e Sorriso (2).

 

Leia também - Delegada explica como denunciar e os canais disponíveis


Nesse sentido, o conversou com o delegado Cláudio Alvares Sant’Ana, da Delegacia da Mulher, Criança e Idoso de Várzea Grande. De acordo com ele, a violência doméstica segue um ciclo, que precisa ser quebrado.


“A orientação que a gente sempre faz para a vítima: quebrar esse ciclo da violência o quanto antes. Se a gente sabe que a tendência é sempre agravar, logo com a ameaça e xingamento, imediatamente a mulher tem que quebrar esse ciclo”, alerta.


Embora não tenha os dados da delegacia de Várzea Grande, Santana pontua que os crimes de ódio contra a mulher aumentaram na pandemia, por mais que boletins de ocorrência não tenham sido registrados. Os canais de telefone e redes sociais são os mais usados pelas vítimas durante o isolamento social.


“Tivemos um aumento, eu acredito, de denuncias feitas através do disque 100 e 180, até mesmo pela facilidade desse tipo de denúncia durante a pandemia”, explica.


Veja os principais trechos da entrevista:


- Quais são os crimes que a delegacia de Várzea Grande mais registra?


Com relação à violência domestica, o maior número de ocorrência que a gente tem é de lesão corporal, ameaça e injúria. Praticamente nessa ordem aí.


– A violência contra mulheres aumentou na pandemia em VG?


O que acontece: se você pedir acesso aos números de boletim de ocorrência, você vai ver que teve uma queda, desse ano para o ano passado. Nós podemos fazer uma análise, que durante a pandemia, não é que o crime diminuiu, mas o modo de denunciar é que modificou. Com a questão da pandemia, do isolamento social, a mulher hoje, vítima, está fazendo a denúncia através do disque 100 e do 180. O número de boletins de ocorrência diminuiu, porque as denuncias estão sendo feitas. Agora, o numero de denuncias que estamos recebendo pelo disque 100 e 180 aumentou.


- E em relação a crianças e idosos?


Não tenho o número exato, falo o que estou sentindo. Com relação a idosos, praticamente não teve um aumento que a gente sentisse aqui na unidade. Com relação a violência contra a mulher e violência contra a criança, aumentou muito a procura da unidade. Tem uma reportagem da Revista Galileu, que fizeram uma análise no Japão e na China, onde teve quarentena, por conta da covid, e aumentou o número de violência doméstica, tanto envolvendo mulher como criança. A partir do momento que você confina as pessoas, e aquelas pessoas passam a conviver mais tempo durante o dia, a tendência é aumentar conflitos. A maioria dos lugares, se você pegar Rio de jJaneiro, São Paulo, Japão, China... Onde teve a quarentena e isolamento social, a tendência ia foi aumentar o número de crimes envolvendo vítima mulher e criança.


- Por ser homem, e ter que lidar com mulheres ou crianças que sofrem violência, como é o seu posicionamento durante o atendimento? Como deixa a pessoa “à vontade”?


Estou aqui há 6 anos na delegacia de Várzea Grande. A maioria das vítimas se sente à vontade, devido à abordagem que a gente faz. Lógico, eu sou um policial, um delegado, mas a gente tenta trabalhar muito o emocional da mulher também no primeiro acolhimento, no primeiro atendimento que eu faço. A maioria dos casos não tem problema algum. Quando eu sinto que existe – e nesses 6 anos que eu estou aqui, a gente tem uma certa prática. Tenho aqui uma delegada que trabalha junto, policiais homens e mulheres. Quando eu vejo que eu não estou me sentindo à vontade ou que a mulher também não está, eu passo o caso para uma colega delegada ou para que outra policial atenda, isso não tem problema nenhum. Mas são mínimos os casos que acontece dessa forma.


– Qual a orientação da delegacia para as vítimas de violência doméstica?


A recomendação que a gente sempre faz é pra fazer boletim de ocorrência e denunciar. Na violência domestica, existe um ciclo. Ele começa muito brando. O agressor, no caso, começa com xingamentos. Começa xingando a namorada ou esposa e isso vai se agravando. É um ciclo, como se fosse uma bola no sentido horário e vai se agravando.


Começou xingando, depois passa a ameaçar, depois começa a agredir com tapa, murro, chute... E isso vai sempre agravando até terminar, infelizmente, em muitos casos com feminicídio. Qual orientação que a gente sempre faz para a vítima: quebrar esse ciclo da violência o quanto antes. Se a gente sabe que a tendência é sempre agravar, logo com a ameaça e xingamento, imediatamente a mulher tem que quebrar esse ciclo, fazendo a denúncia, o boletim de ocorrência em qualquer delegacia do estado, pedir medidas protetivas. (Fazer) o que tá na lei a disposição para proteger a mulher.

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