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08.05.2009 | 03h00

Chiquitania boliviana reúne história e religião

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Um turismo histórico e religioso não sofisticado, assentado na cultura deixada pelas Missões Jesuítas entre os séculos XVII e XVIII, é o que aguarda turistas e visitantes aventureiros na região conhecida por Chiquitos ou Chiquitania, no oeste boliviano, na fronteira com Mato Grosso. A partir de 2004, os governos Departamental Autônomo de Santa Cruz e municipal de San Ignacio de Velasco começaram a promover o local como destino turístico. Foram dois anos de trabalho com levantamento de informações, memória e construção coletiva da cadeia de turismo em uma parceria público-privada e de associações comunitárias, no total de 30 instituições.

Em meados de 2007 houve o lançamento turístico do circuito missioneiro Chiquitos ...otro mundo. As comunidades e cidades da região têm atributo para desenvolver atração para o segmento, uma vez que San Jose, San Rafael, San Miguel, Santa Ana, Concepción e San Xavier compõem o Patrimônio Cultural da Humanidade, assim declarado pela Unesco em 1990.

São localidades do interior da Bolívia, como San Ignacio, fundada em 1748, capital da província de Velasco, pertencente ao Departamento ou Estado de Santa Cruz, distante a 483 Km da capital econômica boliviana, Santa Cruz de la Sierra; a 627 Km a oeste de Cuiabá e a 327 Km de Cáceres, no Pantanal mato-grossense. Distâncias todas que precisam ser percorridas por via terrestre. Da fronteira brasileira para San Ignacio chega-se apenas por estrada de terra em viagem de oito horas. A partir de Santa Cruz de la Sierra, em direção a oeste, atinge-se o roteiro missional por rodovia asfaltada e um trecho de chão com menor tempo.

Mas, vencida a etapa de chegada, a região oferece um mergulho na rica história de pintura, arquitetura e igrejas construídas em madeira, metais e arte barroca. Os costumes e práticas de uma vida comunitária produzem ainda um artesanato talhado em madeira e cerâmica. E mais recentemente, informa o professor e diretor de turismo da Universidade Católica Boliviana, Ricardo Ortiz, a cultura local passou a ter como produto aos turistas a autêntica camisa chiquitana, em algodão cru e com detalhes da arte e símbolo da região. Elas estão em todos os lugares, em feiras de artesanato, como em San Ignacio, a duas quadras da igreja. "Antes, não se vendia 50 camisetas ao mês. Hoje são 5 mil por mês em toda a região", mostra impacto da formação da cadeia do turismo, principalmente em 2007, quando 80 grupos de jornalistas dos principais meios de comunicação do mundo foram levados para várias cidades chiquitanas.

Um dos atrativos principais das igrejas é a aplicação de ícones originais da história chiquitana nas paredes internas e externas, como desenhos de formas retangulares herdados desde pré-colombianos que habitavam a região há milhares de anos.

Ao visitar a região em missão técnica organizada pelo Sebrae-MT, governos de Mato Grosso, de San Ignacio e de Santa Cruz, a diretora Eneida Oliveira sintetizou o turismo praticado na região chiquitana. "Aqui tem um turismo sustentável que queremos praticar em Mato Grosso. Um turismo não de massa, mas que respeita o patrimônio, as pessoas e as organizações", relatou.

Em San Ignacio há ainda a Lagoa Guapomó. É a partir da cidade que se pode fazer um circuito das Missões Jesuítas em outros vilarejos e municípios distantes entre 30 Km e 50 Km um do outro. As demais cidades têm albergues. A capital da província de Velasco tem população de 48 mil habitantes e neste ano, em 31 de julho, completa 261 anos de fundação.

Em 70 anos, entre 1691, com a fundação de San Javier, e 1760, com a formação da comunidade de Santo Corazón, os jesuítas da igreja católica moldaram as chamadas reduções, espaço de iniciação dos indígenas na vida civil e religiosa, como contam os historiadores Virgilio Suárez e Alcides Parejas na obra "Chiquitos. História de uma utopia", edição da Cordecruz e UPSA, de 1992. A partir de 1972 e por 30 anos, a Igreja Católica empreendeu a restauração dos templos.

A maior herança deixada na região da Chiquitania pelos jesuítas é a música. Foi uma forma de os evangelizadores se relacionar e educar o indígena. Da tradição, surgiram orquestras de violoncelo e violino formadas por crianças de 7 a 8 anos e adolescentes de 12 a 17 anos.

A mostra do que fazem cotidianamente os chiquitanos das cidades e comunidades pode ser visto a cada dois anos, com o Festival Internacional de Música Renascentista e Barroca Americana, sempre na última semana de abril e na primeira de maio. Em 2010, será realizada a oitava edição dessa atividade que atrai turistas do mundo inteiro, segundo o guia turístico oficial do governo municipal de San Ignacio, Jesús Rivero.

O jovem Adalid Poquiviqui, professor e regente da orquestra juvenil de Santa Ana, conta que os jovens estudam dois anos e obtém habilidades para tocar. "O grupo iniciante estuda teoria e técnica musical e conhecimento do instrumento", diz. "Os adolescentes passam do estilo barroco para a música clássica e internacional", enumera. Os menores, uma hora diária, e os juvenis, duas horas ou mais, o que depende da sua aprendizagem. San Rafael, de 1696, informa Rivero, foi comunidade criada para fechar o avanço dos bandeirantes que subiam o Rio Paraguai, na fronteira com o Brasil.

É com o guia que se pode ter as principais informações sobre a história, a cultura e os costumes de 14 comunidades indígenas e cidades que fazem parte da Chiquitania. E curiosidades, como o fato de na parte baixa dos altares existirem espelhos, uma forma que os jesuítas encontraram para chamar a atenção dos índios para dentro dos templos pela curiosidade da imagem refletida e também fazerem eles se curvarem ante os santos em sinal de respeito e devoção.

Ele explica ainda que a origem do nome "chiquitos" vem da denominação dada por espanhóis quando da conquista. Ao chegar e se deparar com portas pequenas nas casas, Francisco Irala chegara por volta de 1530 onde atualmente é San Jose de Chiquitos, a sudoeste da Bolívia e teria cunhado o termo. "Chegamos à região dos homens pequenos (chiquitos, do espanhol)", repete Jesús.

É o mesmo guia que também conta o motivo da música, dança e manifestação cultural ser tão forte entre o povo chiquitano. "Aqui não havia tesouro. Nós fomos conquistados com o violino e a dança. Lá no altiplano, na região de La Paz e no Peru, foi com espada e sangue. Havia ouro e prata", afirma.

Em Santa Ana de Velasco, distrito da capital da província fundado em 1755, a 42 Km de San Ignacio, está um legítimo órgão de madeira e de tubos. Seu som único é escutado nas músicas de noites de celebrações. Ele é do ano de 1754 e está em um sótão do lado interno na parte da frente da igreja. Entre os cuidados para apreciá-lo está a visita de grupo de 20 pessoas. Na fachada da igreja de Santa Ana, à noite, pode-se apreciar velas artesanais feitas pela comunidade.

Além de praças com muito verde, na região, de acordo com guias turísticos, há ainda reservas de mica (mineral derivado de sílica, duro, flexível, leve, isolante, transparente a opaco). O material é utilizado no acabamento interno dos templos. Nos Estados Unidos, é utilizado em fuselagem de aeronaves. É um mineral que se funde a 950 graus Celsius.

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Comentários

paulo cesar ribas de neira - 19/08/2011

ESSSE COMENTARIO COM CERTEZA E UM DOS MELHORES DOS QUE EU JA VI EMRELAÇAO AOS CHIQUITANOS!!!

1 comentários

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