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terror dentro de casa 08.12.2019 | 11h55

Vítima de violência doméstica acredita ter 15 anos após agressão do marido

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João Vieira

João Vieira

Glaucia Duarte dos Santos é mulher, preta, mãe e dona de um ateliê onde faz roupas e customizações. Aos 32 anos, ela declara que hoje é feliz: “Sou independente e ninguém mais me domina ou segura minha voz. Sou dona da minha vida. As situações podem acontecer, mas a gente enquanto mulher é muito forte”.

 

A segurança vem depois de uma longa trajetória marcada por um relacionamento abusivo. “No começo era um mar de rosas. Ele era muito carinhoso e atencioso. Do tipo que comprava Fanta Uva porque sabia que era meu refrigerante favorito e chegava em casa em momentos aleatórios com uma rosa”, descreve.

 

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As características de um homem violento apareceram gradualmente. “Ele começou a mostrar ciúme, reclamar de roupas e de amigas”, lembra Glaucia. “Depois, tomou proporções maiores, com proibições de trabalhar e de ver a família. Aos poucos, fui ficando cada vez mais só com ele. E quando você percebe, está cercada no mundo dele e de pessoas que são a favor dele”, completa.

 

Glaucia trabalhava fora, mas engravidou e não tinha quem ficasse com as crianças. Nessa época, as proibições aumentaram, ela não podia mais fazer compras sozinha.

 

“Ele passou a ficar mais possessivo e agressivo, quebrar as coisas. Ele batia nas coisas comigo e me tacava contra os móveis. Colocou uma faca na minha barriga quando eu estava grávida. Chegou um tempo que não precisava mais ter ciúmes para ele brigar. Qualquer coisa ele cismava, até a perda de uma chave”.

 

Glaucia teve três filhos com seu ex-marido. Seis meses depois de dar à luz a última filha, sofreu a pior agressão, porque queria voltar a estudar. E a violência arrancou sua memória.

 

“Ele foi me pegar na escola, estava muito bravo e revoltado. Eu me lembro dele batendo minha cabeça contra o carro, dando soco. Porque ele dizia que ali não ficaria marca”, conta. “Ele me sufocava e eu perdia a consciência. Chegou a me colocar duas vezes embaixo do chuveiro. Quando eu acordava, ele continuava me batendo”.

 

Na última cena de que se recorda, Glaucia estava embaixo do chuveiro. “Acordei no outro dia na cama e já tinha perdido minha memória, não sabia onde eu estava. Achava que tinha 15 anos mas, na verdade, já estava com 23”, descreve.

 

“Achava que tinha que ir para a escola. Dizia que meus pais não tinham dinheiro, porque naquela época eu morava com meus pais e achava que tinha sido sequestrada. Lembrava de tudo, mas só até essa idade”, completa.

 

Glaucia não queria comer e nem chegar perto do então marido, pois sentia medo. “Mas eu não lembrava nada. Só sabia que meu corpo estava doendo, com hematomas e sentia muita dor de cabeça”.

 

O marido mostrou fotos antigas na tentativa de lhe fazer lembrar. “Fiquei com menos medo, mas confusa. Pensava: sou eu, mas não sou. Eu não estava lá”, afirma.

 

Percebendo a gravidade, ele resolveu procurar ajuda. Acompanhada do homem que agora não passava de um estranho, Glaucia foi a alguns hospitais sem ter noção de onde estava. “Pra mim, era como ir em algum lugar pela primeira vez. Um médico chegou a dizer que eu estava fingindo”, conta.

 

O que aconteceu no cérebro de Glaucia?
O espancamento pode causar a perda de memória por motivo psicológico e também físico (trauma emocional e traumatismo craniano), de acordo com o neurologista Roger Taussig Soares, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.

No caso do trauma emocional, ocorre a amnésia dissociativa. “Acontece um bloqueio psicológico por causa de algo traumático que a pessoa sofreu e isso impede que ela se lembre daquele período”, explica Soares.

 

De acordo com ele, esse esquecimento é comum em situações de guerra e abuso sexual. “A perda de memória pode durar décadas. Pode acontecer qualquer coisa, inclusive lembrar de alguns períodos da vida e esquecer de outros. A recuperação é com tratamento psicológico”, afirma.

 

Já a amnésia por traumatismo craniano é causada por uma lesão no cérebro.

 

“A batida [da cabeça] danifica estruturas cerebrais relacionadas à memória. Pode acontecer, por exemplo, com alguém que sofre um acidente de carro. Normalmente, atinge pessoas que ficaram em coma”, esclarece o neurologista.

 

Soares observa que existem três processos de memória: codificação, armazenamento e recuperação.

 

“O traumatismo afeta a codificação de novas memórias, pois atinge uma região chamada hipocampo. Mas a pessoa não tem dificuldade de se lembrar de coisas antigas, porque já estão arquivadas no cérebro”, explica.

 

Glaucia recuperou a memória repentinamente, por isso Taussig supõe que o caso dela foi de amnésia dissociativa. “Se ela teve uma recuperação súbita, provavelmente não estava com uma lesão neurológica. Em geral, as lesões do cérebro se regeneram gradualmente”, analisa.

 

Entretanto, o especialista ressalta que só é possível fazer o diagnóstico correto com a realização de exames. “É necessário fazer ressonância magnética e inúmeros testes cognitivos”, afirma o neurologista.

 

Recuperação da memória e decisão de se separar
Glaucia ainda conviveu com seu agressor por um mês. Depois, passou dois meses na casa de seus pais. Lá, ela recuperou suas lembranças. E ficou dividida entre o medo e o alívio.

 

“Eu dormi e acordei com memória. Tive desespero, medo da morte, de não ver mais meus filhos, de ele usar isso contra mim para conseguir ficar com as crianças. Senti alívio por estar de volta e muito medo pelo que ia acontecer”, lembra.

 

Ela voltou com o ex-marido para ficar perto dos filhos. Mas estava decidida a se separar, apesar dos obstáculos. “Eu não tinha trabalho, casa e era tudo no nome dele. Meus pais nunca me apoiaram. Eu não tinha pra onde correr”.

 

Até que Glaucia arrumou um emprego e comunicou que ia se separar. Então, o ex-marido resolveu que eles iriam se mudar. “Foi do dia para a noite, fiquei sem saída”, conta.

 

Ele passou a trancá-la dentro de casa. Certa noite, após uma festa, Glaucia foi espancada de novo. Ela trocou a fechadura da porta. Mesmo assim, foi agredida mais uma vez e finalmente se separou.

 

Ficou em situação de rua por dois meses e conseguiu se reerguer com a ajuda de uma amiga. Arrumou emprego e casou de novo. “Hoje sou feliz com minha família. Meu marido me apoia e tenho outras batalhas”, comemora.

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